Alberto Carneiro: A evidência da natureza
  na construção da relação humana com o mundo

  texto de João Fernandes in catálogo Alberto Carneiro, Centro Galego de Arte Contemporánea, Xunta de Galicia, 2001.

  A obra de Alberto Carneiro suscita uma reflexão particular sobre a condição da arte enquanto criação de uma evidência da natureza na construção da relação humana com o mundo. O fazer do artista releva da acção do corpo sobre a matéria, reinventando os sentidos possíveis de uma apropriação e transformação do natural pelo humano. Este processo reitera a consciência da arte e da criação como um programa de interpretação do mundo, no qual o corpo é revelado através das operações decorrentes das metamorfoses desse mesmo mundo originadas pelo seu agir.

A escultura resulta assim de uma convergência entre o espaço e o tempo, os quais coincidem na revelação recíproca do natural e do humano no acto genésico da criação artística e do programa de reflexão que a ela se torna inerente. A escultura transforma-se num acontecimento, num evento omnisciente das condições de enunciação que a definem enquanto situação de um sujeito nas coordenadas espácio-temporais que lhe definirão uma identidade, a qual resulta de um processo de individuação da emoção estética atrvés da inscrição e nomeação do momento que o artista partilha com o seu espectador.
Quando o próprio artista propõe uma definição para a sua arte como uma “arte ecológica”, convém não confundir esta denominação com o programa hoje trivial e politicamente correcto de uma ecologia que apenas se reduz à reiteração das evidências que se encontrem em processo de desaparecimento ou situação de raridade. A proposta de um Manifesto de arte ecológica resulta antes daquilo que o escultor enuncia como um programa relacional: “a relação consciente dos significantes na ordenação de uma crítica profunda sobre os significados que virão, depois, como autenticidade das relações com o mundo” (1). A criação artística reinvindica uma sua condição demiúrgica e fenomenológica nesta relação reciprocamente genésica que estabelece entre a natureza e o ser humano: “A natureza recriada à nossa imagem e semelhança: nós dentro dela e ela polarizadora dos nossos sentimentos estéticos” (2). A escultura de Alberto Carneiro resulta assim de um programa de transferências biunívocas entre os significantes da natureza ( uma árvore, uma pedra, uma flor, a água, “um punhado de terra”) e a universalidade dos seus significados, construída a partir da operação poética da sua proposição e da partilha da emoção estética da reconstituição individual das suas referências materiais.
A criação e a percepção da obra de arte cruzam-se na obra de Alberto Carneiro numa sua matriz indistinta. A dimensão genésica da primeira advém de um programa de apropriação e nomeação de materiais, processos e referências metafóricas que jamais encerram o espectador num contexto denotativo restrito: antes, pelo contrário lhe estendem as possibilidades de uma aproximação cúmplice, partilhada numa ampliação da experiência dos sentidos em associações cognitivas abstractas que lhes sublinham a sua materialidade. Corpo e natureza apresentam-se e autodefinem-se reciprocamente enquanto instâncias mediúnicas da relação estética, a qual se desenvolve em programas precisos onde a acção e a reflexão se indissociam, na coincidência entre o trabalho dos materiais e das situações com um mapa conceptual entre a vida e a arte.
  (1) Alberto Carneiro, “Notas para um manifesto de arte ecológica” (Dezembro 1968 — Fevereiro 1972), Alberto Carneiro, Exposição antológica , Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Fundação de serralves, Porto, 1991, p.62
  (2) Ibidem