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uma iconologia do intervalo
repetição e montagem na obra de Julião Sarmento
Existe um
mistério no seio do pensamento sobre arte que é centrado no
que se passa entre duas imagens.
Quer isto dizer que, ao contrário do que passa no campo da música,
onde um som se pode desenhar em contínuo em relação
a outro som, estabelecendo uma continuidade que é física,
no campo das imagens tal não é possível. Isto é,
nas imagens que representam movimento, não é possível
encontrar esse mesmo contínuo. Por outras palavras, as imagens que
demonstram movimento são, elas mesmas, imagens fixas. O movimento,
no entanto, é o destino da apropriação da imagem, seja
em que contexto for. Aby Warburg, o historiador de arte alemão, chamou
a esta possibilidade de conectar -- de facto, o seu método
uma "iconologia do intervalo". Esta iconologia do intervalo deriva
de uma necessidade de compreensão da arte como uma zona de não-fixação,
entre impulso e acção, for a de qualquer fixação
formal, como estigma de um movimento. No entanto, a nossa percepção
do movimento não nos permite ver a impossibilidade da sua representação.
Se tomarmos como exemplo a apresentação de movimento no cinema,
é evidente que não tomamos consciência dessa impossibilidade,
porque vemos movimento. Princípio básico do cinema, a passagem
das 18, 24 ou 25 imagens por segundo dos filmes super 8mm das nossas memórias
de infância, dos filmes 16mm das salas de cinema ou dos vídeos,
analógicos ou já digitais, remete a construção
do movimento para um movimento do espectador, para uma acção
perceptiva, na medida em que não existe forma conhecida de representar
visualmente o movimento, isto é, o movimento enquanto ele-mesmo.
É a partir deste eixo de pensamento que a obra de Julião Sarmento
se condensa, na medida em que provoca duas sensações que se
cruzam de uma forma indiscernível. Em primeiro lugar, uma sensação
a que poderíamos chamar cinematográfica, resultado
de um processo construtivo muito próximo dos processos de montagem
cinematográficos (1).
Em segundo lugar, a percepção de que o que vemos não
se passa diante dos nossos olhos, mas é, pelo contrário, uma
memória fugidia de alguma coisa que já vimos pelo
canto do olho, enquanto movimento. Curiosamente, estas sensações
contraditórias (já que a ligação ao cinema procede
da nossa voracidade de imagem e a obliquidade é uma fuga) resumem-se
numa tensão. O carácter mais marcante do seu trabalho -- e
mais impressionante é a capacidade para a permanência
irresolvida desta tensão. Olhando retrospectivamente para o seu percurso,
sempre assim foi. Sarmento iniciou o seu percurso em 1972, pela pintura.
Essas primeiras obras incluiam já um carácter fragmentário
presente nas instalações que produziria mais tarde, ligadas,
sobretudo a um pensamento sobre a prática da pintura e a sua relação
com o espaço. Este primeiro procedimento na pintura estabelece um
campo de relação com o cinema, longe da prática pictórica
e antevendo já a fuga que os seus trabalhos posteriores viriam
a usar como processo (2).
A partir de 1975 o seu trabalho diversifica os suportes, recorrendo ao filme
Super 8mm, a instalações que utilizam texto (e a palavra é
fundamental na construção do seu universo) por vezes som e,
frequentemente, fotografia. Curiosamente, os trabalhos deste período,
se são tributários das preocupações analíticas
de ampliação do campo artístico, manifestam já
uma utilização da imagem como estratégia de sedução,
quer através de mecanismos de erotização, quer através
da construção de micro-ficcões suspensas. É
o caso de trabalhos como o filme Super 8 de 1976 Faces, em que duas
mulheres se beijam interminavelmente até dissolverem completamente
o baton dos seus lábios, ou no, conjunto de imagens fotográficas
de uma mulher nua e vestida com casacos de peles de animais, verdadeiras
e sintéticas, trabalho que parece invocar Sacher Masoch de A Vénus
das Peles e adiante trataremos deste eixo de conexões.
É sobretudo a partir dos trabalhos fotográficos de 1975 (embora
nas pinturas genericamente conhecidas por Sombras, dos anos anteriores,
já se encontrem silhuetas de mulheres que se recortam contra fundos)
que o trabalho de Sarmento vai encontrar nos processos do desejo e, progressivamente,
na figuração da mulher, a forma de produzir os mecanismos
específicos do seu próprio processo a suspensão
e o seu tema mais recorrente o espaço entre os corpos.
Esta dimensão negativa do que está entre, no meio, é
particularmente importante no seu percurso, sendo claro que, para Julião
Sarmento, essa tónica é simultâneamente oriunda de um
interesse batailliano pelo espaço negativo do erótico, mas
é, também, conscientemente, uma reflexão sobre a ontologia
negativa do epaço, constrída desde Duchamp e o female figure
leaf, passando pelos moldes de Bruce Naumann que encontra, também
uma continuidade na escultura de Rachel Whiterhead, esta última muito
longe, no entanto, do percurso de Julião Sarmento. Em todo o caso,
é o processo de encontrar uma espessura no espaço entresticial
o mecanismo (cinematográfico) de que se serve, talvez a sua característica
mais perene e constante. O espaço é, portanto, apresentado
como mecanismo da eficácia do desejo, mas também como metáfora
serial da distância entre cada repetição, em que ver
mais é, sobretudo, ver menos. Este tema do fascínio
pela visão do que não está (já) lá, ou
a perversidade de estabelecer o desejo da visão do rosto como única
possibilidade de erotizar a exposição do sexo (como no filme
Pernas, de 1975), configura o estabelecimento da figura do libertino
como categoria fundamental do trabalho de Sarmento, de uma forma permanente
até hoje. Aliás, poder-se-ia comparar esta zona do seu percurso
com a instalação Cerco, de 1993, composta de duas fotografias
de grande formato. A primeira destas imagens representa uma personagem indistinta
do sexo masculino que olha para a direita, numa clareira de uma floresta.
A outra das imagens apresenta uma mulher que é sodomizada por um
homem. À mulher pode-se ver o rosto, enquanto que o homem se encontra
protegido na sua anonimidade. Neste campo de trabalho está, então,
circunscrita uma figura, uma modulação de um personagem. Por
um lado, este personagem é claramente alguém que se alimenta
da ausência, do objecto ausente (3).
Por outro lado, este ausente uma certa ideia de mal é
intuído, mas nunca explicitado. Na peça Quatre Mouvements
de La Peur, de 1978, a figura do ausente/presente é sinalizado
num conjunto de fotografias de grande formato de uma mulher que corre, de
noite, numa floresta, com o corpo revelado por um robe-de-chambre
que se entreabre, até à imagem do seu corpo caído,
do qual só é visível um braço. Nesta fuga está
contida uma impessoalidade ( o que é uma alusão a Sade) mas,
sobretudo, uma preocupação da demonstração
o corpo caído é uma demonstração da fuga, da
sua razão, como fica claro na pintura Descem por Ela as Mãos
da Noite, de 1987, que utiliza duas das imagens fotográficas
tomadas na preparação de Quatre Mouvements de La Peur,
separadas por um painel monocromático negro e ostentando, em baixo
três desenhos de uma mão que segura chopstiks. Esta
simples e irónica figuração da precisão cirúrgica
da manipulação reforça a violência da impessoalidade
e, mais uma vez, demonstra sem explicitar. Por outro lado, essa precisão
da manipulação abre um campo ficcional, um campo entre o ver
e o manipular que viria a ser perseguido, mais tarde, sob a forma dos grandes
planos das mãos estropiadas, pertencentes a mulheres sem rosto. A
partir de 1980 Sarmento volta à utilização sistemática
da pintura para, durante os 9 anos que se seguem, desenvolver um léxico
extensíssimo de figurações ligadas sempre à
compreensão dos processos de manifestação do desejo,
quer através de uma pornologia que, no seu caso, é muito próxima
(ou substitui) a possibilidade de uma total abstracção, quer
através da criação de um conjunto de dispositivos que
materializam o espaço possível entre os corpos, sob a forma
de vórtices, como nas instalações que utilizam a pintura,
ainda em 1978/79, até ao recurso ao surgimento de objectos cortantes,
ou ao uso da palavra, ou mesmo à própria representação
de espaços casas, cercas, labirintos. A partir de 1989, o
seu trabalho encaminha-se na direcção de uma progressiva secura.
Por um lado, o léxico reduz-se e o desenho tem uma predominância
na construção da obra. Por outro lado, o vazio preenche a
tela, que passa a incluir fragmentos que se dispersam e constituem simulacros
de narrativas. É o caso das obras O Espaço Entre as Coisas
(M5), de 1990, ou Inevitable Polarities, de 1989, imprescindíveis
para a compreensão do ciclo de trabalho que se viria a inaugurar
com a exposição Dias de Escuro e de Luz, de 1990. Esta
série de trabalhos inicia o ciclo das chamadas pinturas brancas,
que se mantém até hoje, nomeadamente até à série
Fundamental Accuracy, apresentada no Hirshorn Museum de Washington
em Fevereiro de 1999 e que tem vindo a prolongar-se no trabalho posterior.
A exposição me, que o Museu de Arte Contemporânea
do Funchal apresenta, continua este campo de utilizações da
figuração da mulher, seguindo um percurso que se inicia com
a fisicalidade das esculturas, persegue a figura feminina que serpenteia
pelas ruas de Lisboa, segue-lhe o rasto nos gestos repetidos da mulher que
se toca, cravando os dedos na própria pele e esfuma-se na estranheza
das imagens aparentemente abstractas de "the house with the upstairs
in it", pela primeira vez apresentadas em Londres em 1996.
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II.
A série Dias de Escuro e de Luz , início das chamadas
pinturas brancas, apresenta representações de corpos e de
espaços, sobretudo de corpos femininos, iniciando a presença
de uma mulher que é frequentemente associada à presença
de elementos cortantes, facas, intuições de incisões
sobre o corpo que se viriam a repetir posteriormente. Sintético e
seco, o trabalho apresenta uma mulher sem rosto uma categoria que
se irá manifestar por diversas formas nos trabalhos subsequentes,
nomeadamente em séries mais recentes, como Veneno e Carpe,
associada a um limite de um espaço, uma cerca, em negativo. O uso
do negativo, já presente no trabalho anterior de Sarmento, virá
a ter uma importância particular na instalação A Importância
da Surpresa no Ataque, conjunto de oito pinturas de grandes dimensões
que apresentam uma mulher, num hipotético pedestal, figura em metamorfose,
sem rosto. Colocadas frente a frente, as figuras enfrentam-nos sem nos olharem,
radicais na dualidade do preto e branco, pares de opostos. Esta obnubilação
do rosto só viria, na pintura não é o caso dos
trabalhos com suporte fotográficoa ser quebrada na série
Ataque, de 1994, e na instalação O Paradigma de Basedow
Aplicado à Pintura Decorativa, de 1995 e na série Febre,
do mesmo ano. Em qualquer dos casos, o surgimento do rosto está ligado
à apresentação da androginia (4)
e, portanto, surge como sintoma da mesma impessoalidade, mostrando-se como
um rosto da não-identidade. Fica, então, o centro localizado
no corpo como ensaio de resistência e por várias formas. Quer
como objecto de ensaio da sua fragmentação, como na aparente
escatologia de Sleeping on a Bed of Nails, de 1991, onde o corpo é
sempre confrontado com um receptáculo, numa sibilina sugestão
de libações ou dejecções (em Nunb (II),
de 1991/2 é realizada a fase demonstrativa) ou em The Cone concealed
a Blade, onde o corpo de mulher surge como sugestão. A frontalidade
da imagem feminina que se inicia nestas obras a partir de 1991, concentra
a sua perturbação na oferta. De facto, é um corpo que
se oferece ao olhar, mas em termos efectivos ao desejo, não pela
sua exposição, mas pela perversidade da sua ausência. |
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III.
No conjunto das pinturas brancas da década de noventa, há
um elemento que se repete sistematicamente, a presença da mulher.
Não que seja o elemento único ou exclusivo. Existem séries
que introduzem outros elementos do seu universo, como as referências
à arquitectura, sobretudo nas obras de 1995/96 que apresentam espaços
arquitectónicos modernistas da Bauhaus, à série, de
que agora se apresentam quatro obras, The House with the Upstairs in
it (apresentada na London Projects em 1996 e que se ligam à correspondência
entre Joyce e a sua mulher Nora, trocada durante os breves momentos em que,
ao longo da sua vida matrimonial, se encontraram separados). É o
caso de Violer dAmores(Paris-London 1926), de 1995, Standing
Still to Hear Better (Dublin-Trieste 1909), este último tematizando
a mutilação das mãos de uma mulher, também presente
em Completion Rather than an Interruption (Zurich-Paris 1918), de
1996, particularmente perturbador pelo associação entre o
corpo feminino e um gesto de agressão (ou de auto-agressão).
Nesta obra fica claro, pela ambiguidade da origem do gesto de manipulação
da faca, que se trata de um gesto para outrém, isto é, trata-se
de performar um gesto. Esta performatividade do gesto que faz nascer uma
tensão tem-se assumido progressivamente no seu trabalho, parecendo
no entanto que a série em torno de Joyce/Nora representa um momento
imprescindível neste percurso. Será também esse o sentido
da obra They Pass in an Air of Perfumes (Dublin-Dublin 1904), do
mesmo ano, em que o gesto de estender a mão cristaliza a espera,
não só porque é a mesma mão mutilada que o encena,
mas porque a proximidade da sombra de outrem está próxima
e é, portanto, quase tangível a sua ausência
o que, aliás, se encontra em rara consonância com o título,
expedido e recebido em Dublin. Temos, assim, assinalada a forma pela qual
se manifesta a presença do corpo feminino na sua obra. Sarmento cria
um dispositivo, no qual a mulher performa um gesto para um ausente. Este
ausente é substituído pelo espectador, que (literalmente)
vive o espaço dessa ausência como substituto, como intruso.
Trata-se, assim, de testar a capacidade performativa do corpo, mesmo que,
para isso, o corpo tenha de ser mutilado, tenha de ser encenada a sua violentação.
A série Casanova, apresentada na Bienal de Veneza em 1997,
percorre as possibilidades desta encenação, quase como se
fosse a demonstração de que um corpo é sempre um corpo
destinado a outrem, como acontece nas memórias do Veneziano, não
só para seu usufruto, mas para a visão (como na célebre
encenação que Casanova realiza para o Cardeal Bernis,
observador escondido mas consentido pelos amantes, com a religiosa identificada
como M.M., a quem viria a oferecer um retrato encomendado a Boucher) (5).
No conjunto de trabalhos da Bienal de Veneza, a mutilação,
que até agora tinha sempre surgido como o testemunho da oferta do
corpo, aparece dada de uma forma mais subtil, como incisão na roupa
, no vestido negro da mulher ou, de uma forma mais provocatória como
directa penetração dos dedos na carne, como se a pele não
bastasse para conter o limite da sensação. Em Entre a Abnegação
e a Volúpia, uma mulher realiza um corte no vestido (mais profundo?).
Esta é a referência libertina mais explícita de Julião
Sarmento: os gestos que a sua obra, em pintura, fotografia ou vídeo,
encena, são sempre gestos cuja natureza não reside no facto
de serem practicados, mas no facto de serem representações,
isto é, de terem a sua natureza no seu destino. |
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IV.
Um elemento essencial para a realização sucessiva deste processo
de demonstração é a repetição. Na pintura
de Julião Sarmento os gestos repetem-se, como se de um permanente
ensaio se tratasse e daí a utilização do desenho
como dispositivo, frequentemente apagado e rasurado, como se devessem ficar
visíveis as cicatrizes na pele mas também as mulheres
se repetem, nos seus vestidos negros, nas mesmas situações
(levantam um pouco o vestido, tocam-se, descobrem um ombro). Esta repetição
tem uma função definida. É nela que reside a sua obliquidade,
da mesma forma que, em Sade, é na repetição e na descrição
que (como nota Deleuze) (6)
o libertino encontra o seu mais elevado grau, num processo, aliás,
muito próximo da ascese a apatia do libertino como pornólogo
em confronto com o entusiasmo do pornográfico. É neste carácter
repetitivo que se constroi um sistema de permanente tensão, tentando
encontrar de que forma uma "dor B provocada na natureza segunda, poderia
repercutir-se infinitamente na natureza primeira " (7).
Este dispositivo, no entanto, só pode ser activado de forma fragmentária
e substituta, como prazer da demonstração, mas nunca da explicitação.
De tal forma esta ética do libertino pode ser exercida que Sacher
Masoch, por exemplo, foi frequentemente tomado por um escritor etnográfico,
no sentido em que os jogos que descreve são tão dúbios
que podiam ser tomados por inocentes práticas regionais. A ligação
de Sarmento com Masoch, no entanto, prende-se sobretudo ao carácter
de suspensão e á representação monumental da
mulher. Compreende-se, portanto, o interesse de Sarmento por Casanova, mais
do que por D.Juan. Não se trata de contabilizar (o libertino veneziano
não tem um Leporello para efectuar a contabilidade das conquistas),
mas de repetir, mais uma vez, a encenação da ausência.
Por outro lado, a repetição surge como uma prática
que gera, pela sua própria existência, um campo de sentido
que se multiplica serenamente. É através da repetição
dos mesmos gestos (tocar-se, levantar-se, lavar-se, mostrar-se, esconder-se)
que o sentido reflexivo do seu trabalho se demonstra. Executa um jogo connosco:
fingimos que cada vez que vemos o sentido, serialmente, se revela. Não
é verdade. O sentido não se revela, mas deixa-se ficcionar
porque, compulsivamente, deve haver um mais-sentido na presença crispada
do mesmo. |
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V. No universo
de construção desta figuração libertina existe
um caso particular, que remete para uma dimensão escultórica
e monumental. Trata-se da instalação A Importância
da Surpresa no Ataque, de 1994, um conjunto de 8 telas de grande dimensão,
cada uma delas contendo uma figura feminina. Apresentam-se face a face,
em paredes opostas e realizam o simulacro de uma estrutura espelhada.
Nas telas brancas a figura recorta-se a negro e o oposto acontece nas
telas negras. Se nas primeiras, a figura se encontra sempre de frente,
nas últimas a figura encontra-se de costas, mas em ambos os conjuntos
a mulher encontra-se sobre uma base, a que poderemos chamar um pedestal.
Trata-se, portanto, de um monumento, já que o ponto de vista do
espectador é baixo relativamente à figuração,
mas também à instalação das pinturas, um pouco
mais altas do que o habitual. Este carácter monumental tem um significado
particular nesta obra, mas possui também um relevo particular na
imagética da mulher na sua obra. É particularmente interessante
cotejar as recentes esculturas em fibra de vidro de figuras femininas
( de que, na exposição me se apresenta um dos exemplos
mais marcantes) com a instalação pictórica A Importância
da Surpresa no Ataque já que, se esta convoca a estratégia
do monumento como processo, a presença das esculturas, rigorosamente
à escala humana e sintomaticamente decepadas, o que lhes
diminui a volumetria é elusiva em relação
à própria ideia de monumento. Eloquentes na presença,
as esculturas vivem do seu carácter amputado e alimentam-se dele,
o que quer dizer, da nossa relação com a mutilação
enquanto destruição do corpo. Exactamente o contrário
enquanto processo da instalação, que surge aos olhos do
espectador como uma evocação (pelo seu carácter monumental)
de um corpo que se metamorfoseia. É, portanto, um monumento contraditório,
no sentido em que celebra (substitui), não uma cristalização,
mas uma transformação do corpo, de um corpo que adquire
extensões, donde saem mistérios. Ao que parece, estamos
perante mais uma referência ao carácter dúplice da
natureza de que fala Sade e que Klossowsky tão bem identificou.
Como descreve Deleuze, "a natureza segunda é uma natureza
sujeita às suas próprias regras e às suas próprias
leis: aí se encontra o negativo em toda a parte, mas nem tudo aí
é negação. As destruições são
ainda o reverso de criações ou de metamorfoses; a desordem
é outra ordem, a putrefacção da morte é ainda
a composição da vida. O negativo encontra-se por toda a
parte, mas apenas como processo parcial de morte e destruição."
(8) O
que é interessante é que o agente desta negatividade, na
obra de Julião Sarmento, é a mulher e não o libertino.
O agente da negatividade é a performatividade desse corpo que em
negativo se transforma, apesar de, na versão positiva tudo indicar
que a estátua de mulher representada é de uma mulher grávida.
Estamos perante um mal que é inerente à vida, mas que não
é o do suplício inflingido do sádico, nem tão
pouco o da subjugação de Masoch, mas a da identificação
da mulher como o facto em si do simulacro para outro do mal. É
nesta teia que nós, como espectadores, caímos e é
com esta alteridade que nos identificamos . Trata-se, então, de
um jogo muito subtil com a condição de ver (com a nossa
condição de espectadores) e com a resistência do corpo
que, na metamorfose, na mutilação, na distância, convoca
e existe para esse olhar.
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V. Voltemos
à primeira interrogação da perplexidade de que partimos
(10): como se articula
o carácter paradoxal na obra de Sarmento entre a ligação
cinematográfica e a concomitante compulsão da imagem e o
carácter fugidio das suas figurações? Para tornarmos
a essa questão, é necessário invocar a série
What makes a writer great que é agora apresentada na Porta
33. Trata-se de um conjunto de colagens em dois formatos distintos: 152,5
X122 cm e 68,5 ¼ 48 cm. As colagens incluem imagens de duas proveniências
as de formato menor incluem imagens fotográficas recolhidas,
procuradas ou meramente encontradas, sinais de um universo já familiar
na sua obra. As peças de maior formato incluem fotografias captadas
pelo próprio artista. Esta distinção é, na
maior parte dos casos, irrelevante para o espectador, não o sendo,
eventualmente, para o seu autor. De facto, em ambos os casos, se trata
de utilizar o mesmo dispositivo de montagem e edição. Em
comum, as duas tipologias possuem a inclusão de textos, palavras
ou frases retiradas a livros. A fonte é indiferente, na medida
em que, pela curtíssima dimensão da citação
(em inglês ou em francês) a descontextualização
é absoluta, introduzindo um sentido que, for a da dimensão
íntima do seu autor, é completamente diverso do da sua hipotética
origem. Por fim, é necessário esclarecer que o texto é
escrito à mão, a lápiz, deixando, em torno das palavras
inscritas, o halo da grafite, prova da presença da mão.
Assim, o resultado é o de um conjunto que executa um vai-vem permanente
entre a tónica no processo de edição e montagem,
de racord entre memórias, circunstâqncias vividas (e registadas
fotográficamente) e a tensão arquivistica. Como no caso
de Godard, esta série de trabalhos filtra todo um universo de referências
tornadas opacas para o seu espectador, mastigando o mundo visual como
um atlas de imagens e textos, um processo de permanente remissão
do conhecido para o desconhecido, do reconhecimento para a estranheza,
como se a arte combinatória que apresenta não deixasse de
guardar o segredo da sua razão. Por outras palavras, a série
What makes a writer great é um ensaio sobre a tensão,
os seus processos e os seus logros, adivinhando-se a resposta ao repto
contido no título: somos nós, jogadores compulsivos do jogo
do sentido que, na ânsia de produzir uma ficção, encontramos
o espaço entre as imagens e as palavras e nele recriamos os processos
de um ausente.
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Podemos
agora tentar responder à pergunta inicial. O carácter
intimamente cinematográfico da obra de Julião Sarmento
reside na tensão que é gerada entre a nossa condição
de coniventes com a atrocidade da mutilação do corpo,(como
da imageme da palavra) e o carácter paradoxal da identificação
entre a vítima e o perpetrador do crime, como na cena inicial
de Un Chien Andalou, de Buñuel recusada, aliás,
por Bataille para publicação nos Documents, por
a considerar moralmente não apresentável (11)uma
cena que nos faz olhar mas de relance . É esse, talvez, o sentido
dessas mulheres que povoam as suas obras moralmente, talvez
dessa única mulher, cujos nomes mudam, Emma, Nora, Laura,
Alice que existe como nossa alteridade, como nosso duplo.
O processo dessa identificação é o da repetição que,
pela permanência, convoca um ausente, uma terceira entidade que é a
figura ficcional do libertino. Esta repetição, no entanto,
não existe só. Como afirma Giorgio Agamben num texto
notável sobre o cinema de Guy Debord, (12) a
imagem contemporânea é um corte móvel (13).
O processo do cinema é o da repetição e paragem.
Se a repetição é o retorno do idêntico (para
continuar com Agamben) e já vimos como este aspecto é essencial
na obra de Sarmento é sobretudo a possibilidade do idêntico
tornar a ser percebido como algo presente, mesmo se é sentida
essa presença como reminiscência fugaz. A paragem (stoppage) é o
poder de interromper. Na articulação entre repetição
e stoppage surge a imagem que se dá a si própria
a ver e não desaparece no que a faz visível (14).
Neste processo, a imagem dá a ver a sua negação,
a sua invisibilidade. É deste limite da visibilidade que se
alimenta a obra de Julião Sarmento, como algo que, simultâneamente,
se repete como presença da mulher, mas que só pode ser
visto pelo canto do olho, de passagem, de relance. Delfim Sardo
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1. Conf. Tarantino,
Michael, "Julião Sarmento, uma montagem de atracções"
in Julião Sarmento, ed. Fundação de Serralves, Porto,
1992 (cat) 2. Conf. Gaßner,
Hubertus, "Wo der Schmertz Regiert" in Julião Sarmento
Werke 1981-1996, ed. Haus der Kunst Munchen/Cantz 1997 (cat) 3. Conf. Deleuze,
Gilles, Présentation de Sacher Masoch, ed. Editions du Minuit,
1967 4. Sardo, D. "A
Paixão de Swann", Julião Sarmento, Palácio Nacional
de Sintra, 1995 (cat) 5. Conforme descrito
por Thomas, Chantal, Les Voyages de Casanova, ed. Denoel Folio. 1985 6. Deleuze, op.
Cit. 7. Idem, ibidem. 8.Idem, ibidem,
p.26 9. A este respeito
é fundamental o texto sobre Sade incluído em LErotisme,
de Georges Bataille, Éditions du Minuit, 1957 10. No texto supracitado,
de que Sarmento muito gosta (e que utilizou em trabalhos dos anos setenta)
Bataille afirma "a própria volúpia exige que a angústia
tenha razão. Efectivamente, onde reside o prazer se a angústia
que lhe está ligada não esclarecesse totalmente o seu aspecto
paradoxal? Se não fosse insustentável aos próprios
olhos daquele que a conhece?" Sábia interrogação. 11. Krauss,
Rosalind, Linforme, mode demploi e texto introdutório
de Yves Alain Bois, ed. Centre Georges Pompidou, 1996 12. Para toda a
referência aos conceitos de Repetition e Stoppage foi utilisado
o texto de Giorgio Agamben "Repetition and Stoppage, Guy Debords
Technique of Montage", Documenta documents 2, ed. Cantz, 1996 13. uma imagem-movimento
na terminologia de Deleuze 14. Agamben, op.cit.
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