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Uma jornada
I Em tempo
de guerra devemos estabelecer para a simples fala sobre as coisas, mesmo
sobre as coisas da arte, o sentido de uma jornada. Já passaram
os primeiros dias da luta, mas o corpo dos convocados ainda não
se empenhou na voragem de uma vitória, com a qual sempre se encobre
a derrota. Sob a poeira da guerra a natureza é mais natureza e
a paisagem que lhe assiste pede um delineamento pueril anunciado num leve
verde; ténue esboço de cinzas, massa negra que tudo invade
em golfadas revoltas de fuligem, carvão, nacarado breu. Em tempo
de guerra há um instante de silêncio, espécie de precisão
metálica que irrompe na alvorada. E logo surgem os homens. A palidez
do sono confunde-se com uma espécie de alvaiade que, de antemão,
lhes dá o rosto da morte; de mistura com o sangue do combate. Avançam
devagar. Rastejam. Quando o rebentar de uma e outra bomba faz com que
se detenham no chão, têm uma estranha rigidez, o aspecto
de estátuas. Parecem mármore e, sob a máscara que
os defende dos gazes, os rostos, sob a camada de lama e pó, adivinham-se
queimados do sol. Um desses homens tem numa das mãos uma coruja.
Uma coruja viva. Desceu no deserto da Ásia, vinda da distante Acrópole.
É uma daquelas corujas que cantam à noite entre a colunata
dórica do Parténon. Palas Ateneia que desceu até
às mãos do combatente; e ele só lhe pode dar colunas
de aço, de ferros torcidos; colunata de epidemias, de sede e de
fome. São muito claros os olhos da coruja. Também o homem
tem os olhos desse modo líquido. Cruzam-se os olhares. São,
no homem e na coruja, senhores de uma expressão misteriosa e antiga,
inexorável. Um vapor seco, negro, funde-se com o verde húmido
da erva e com o reflexo de ouro de um horizonte de dor. Subtis sinais
de grafite, de tinta da china; e logo o óleo, o prender da cera,
verniz que se confunde com o fragor dos elementos. Um denso, opaco silêncio
envolve toda a planura do desenho. E, rápida, regressa a obscuridade.
Vem rasgada de relâmpagos, que não são esses espasmos
de luz a que a geração do homem se habituou sob o tecto
da casa. Estes, percorrem os corpos de uma inquietação e
de um sofrer que são feitos da espera junto à linha de fogo.
II Não foi exactamente assim o modo inicial desta jornada. Rui
Vasconcelos e Paulo Brighenti encontravam-se num pequeno café do
Largo da Graça. Um, chegava de eléctrico e trazia sempre
consigo a enorme pasta de desenhos. O outro, vinha do atelier, que fica
próximo, numa daquelas vilas traçadas pela Primeira República
e que sobrevivem em Lisboa. Deram-me, numa tarde em que estive presente,
umas folhas fotocopiadas do Fedro. Primeiras páginas. Quando Platão
procede ao encontro de Sócrates e de Fedro e os afasta da estrada
que corre a par do rio Ilissos e os faz procurar uma sombra para se sentarem
sob uma brisa suave. Antes de chegarem ao sentido do belo, hão-de
perder-se, Fedro e Sócrates, na descrição de Gorgonas
e Quimeras: figuras híbridas causadoras de espanto e temor. Nas
margens do Ilissos falaram acerca da arte dos augures e dos páramos,
esses círculos que tecem os deuses ao redor da terra imóvel.
Quanto a Brighenti e a Vasconcelos, procuravam, nesse encontro para que
me convidaram, a simples figura de um desenho. Isto é, um elo condutor
de uma representação geral que servisse de um modo e tempo
enérgicos. Esse elo, esse vínculo, esse desenho teria de
ser captador de uma percepção da natureza e, portanto, capaz
de lhes possibilitar a expressão de um trabalho. Procuravam um
"dizer" que, de um modo simultâneo, mostrasse, deixasse
aparecer e desse a ver e a entender a determinação de um
traço condutor de nuvens, de vegetação, de mar, de
formas do terreno: coisas que sustentam uma paisagem e que prendem à
superfície do papel ou da madeira a ressonância e a medida
das suas circunstâncias espaciais. Pareceu-me que procuravam um
"tom", uma dolência, um traço que conduzisse o
pincel, o lápis, a goiva, o deslizar da cera sobre um campo; sobre
um território de imaginada geografia, somente existente na irracionalidade
de que povoamos a presença da nossa própria voz. Aparente
e quimérica voz, capaz de bordejar o desaparecido Ilissos e não
o "ali em baixo" Tejo. "Uma paisagem" - disseram-me,
dessa vez, em conclusão - "é uma retirada metódica
há muito tempo preparada." Queriam dizer-me muito mais. Que
uma paisagem deve transportar para o mais dentro de si: ruínas,
povoações incendiadas, cadáveres, tanques de guerra
e aviões abatidos. A fisionomia de uma paisagem não é
coisa que se descreva por meio de um juízo apressado. A luta com
o relevo do terreno e com a vegetação não o permite.
Numa paisagem qualquer sinal que surpreenda deve residir no avanço
escondido de quem desce um passo sobre o passo seguinte, de quem afasta
a ramada alta de uma árvore, para de seguida trazer ao olhar a
transfiguração de mais folhagem, de mais verde ou do mais
negro de nuvens que na distância se elevam. Depois, segue-se o voo
rasante de um pássaro, como se o céu fosse cortado pelas
suas asas inesperadamente metálicas; segue-se um insecto, carapaça
quitinosa semelhante a um carro de assalto que mergulha na lama profunda.
Mas nesse chão de cobertura vegetal de Rui Vasconcelos, ou de secas
pedras e de água do mar a que Brighenti preferiu convocar uma tonalidade
castanha, somente se invocou o manso e doce sussuro da chuva. "Tranquila
e harmoniosa ilusão, pois até dentro de um aquário
há tempestades." Creio que foi o Paulo Brighenti quem o disse.
III As pinturas, gravuras e o desenho de Paulo Brighenti organizam a mancha.
Ela invade o território da paisagem e dá-lhe, no desenho
e na gravura, o peso de uma terribilidade que nos poderá levar
a algumas obras que no século XVII se desenvolveram na cidade de
Nápoles. Penso em Salvator Rosa ou nos parques e batalhas do alemão
Johann Heinrich Schönfeld que com os napolitanos por largo tempo
conviveu. O espírito da guerra atravessa as suas obras, de onde
decorre uma dolência que extravasa figuras e paisagem. Tem este
sentido o uso da mancha e dos sombrios negros de Brighenti. Ele próprio
alguém seduzido pela luz napolitana (a melhor referência
para um diálogo com o peso da sombra) e por uma tradição
de "caprichos" e "ruínas" que, por vezes, se
deixam confundir, vindos do espaço italiano, com os pintores de
expressão castelhana e andaluza. É suficiente pensarmos
nos "caprichos" de Goya. Não no enredo crítico
que deles se ergue, mas na involução do corpo da mancha
e no percurso que esta faz desde os desenhos preliminares até às
gravuras finais. Também um caminho semelhante podemos encontrar
na passagem dos desenhos ao verniz mole das gravuras de Brighenti. Passagem
que não será estranha aos múltiplos trabalhos que
os "caprichos" goyescos inspiram entre artistas do século
XX, tal como ocorre numa longa série de desenhos de Sigmar Polke,
de 1984. O diálogo com a pintura antiga e com os contemporâneos
é, em si mesmo, uma jornada. No trabalho de Brighenti podemos pressentir
irromper não só a sombra do Vesúvio, como o apaziguamento
da obra de Tiepolo ou Giovanni Bellini. (Ou ainda, para não nos
afastarmos de todo da sedução da luz do sul de Itália,
de Abraham Brueghel que, vindo de Antuérpia, soube procurar a imagem
napolitana para morrer.) O diálogo com Tiepolo e G. Bellini e com
o risco paisagístico de Brueghel levam a um indicador do "dizer"
pictórico e não só contemplam no trabalho de Brighenti
a mediação de um pensar a pintura, como instauram nos seus
óleos sobre madeira uma fortíssima ideia de repouso. Repouso
sobre inquietação, se não nos esquecermos das pinturas
monocromáticas que mostrou em 1998 na Galeria Pedro Cera. Paisagens
líquidas, um mar tomado por uma tonalidade castanha, névoas
nacaradas ou um verde magoado são os elementos límpidos
que surgem na pintura, em grande contraste com o evolucionar da mancha
no desenho e na gravura. Irradiam estas pinturas, como se sobre elas se
tivesse lançado uma poada de ouro, uma representação
de meditado esplendor.
IV "No inverno seguinte, os atenienses da Sicília empreenderam
uma expedição na companhia dos gregos seus aliados [
]
neste mesmo inverno os atenienses purificaram Delos, de acordo com certo
oráculo. Pisístrato, o tirano, já anteriormente tinha
efectuado uma purificação, mas não toda a ilha, somente
a parte visível do Santuário. Agora, Delos foi purificada
totalmente, do modo que se segue: quantos túmulos havia em Delos
foram transladados, e de futuro proibiram que se morresse ou parisse na
ilha" (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso,
livro III, cap.103 e 104). É este lado de uma jornada, carregada
de um pendor que procura ir da luz à obscuridade e, de seguida,
agir de modo a que os elementos que permanecem sob o mais escuro participem
da luminosidade e se situem num campo de visão que se exprima através
de um velamento e de uma penumbra, o que vamos agora perseguir. É
este passo da jornada, se olhado através das páginas do
Fedro, o que vai parecer chegar até nós sob o irracionalismo
fantasioso de Apolo délico, que quero entregar ao desempenho do
trabalho de Rui Vasconcelos. Podemos, também aqui, invocar Brueghel
e podemos mesmo aproximarmo-nos de alguns momentos da obra de Sigmar Polke.
Como podemos recorrer a trabalhos bem mais recentes: às imagens
digitais de Thomas Demand ("Hecke-Hedge", 1996), uma iridiscente
explosão de folhas verdes, intensas, expostas em campo negro; ou
a Glen Wilson ("Desert Fishing", 2000), imagem igualmente digital
em que se sinalizam os veios verticais de um cacto, maculados pela aspereza
de geométricos picos. Mas o mais certo (e também mais eficaz)
será aproximarmos as técnicas mistas de Vasconcelos e, mesmo,
a encáustica, da ideia (central em todo o seu trabalho) de que
a paisagem é, em verdade, uma coisa estranha sobre a terra. Uma
coisa estranha: um passo de algum perigo na jornada: um diálogo
em que o pensamento sobre a paisagem se alonga e amplia sobre a natureza;
e onde, com muito cuidado, não fosse a própria natureza
despertar na erupção dos seus mais violentos elementos,
repousa; onde suavemente poisou o ténue manto da (inventada) paisagem.
É este o repouso comum ao desenho de Vasconcelos. Um diálogo
monologado com o próprio desenho, com o esvaecer da cor e, sobretudo,
com os leves sopros de cinza que se desprendem da mancha, da coloração
de mais cinza que é a mancha. Mas logo se espalham esbatidos sinais
padronizados. São uma escolha realizada quase por um "dizer"
hermético. Carregado de medidas (que contêm a padronização)
e que retêm, sob a aparência de uma inevitabilidade, o peso
sombrio de um selo. O envio dessa "marca" talvez se encontre
na geometria do desenho islâmico ou tibetiano ou no geometrismo
vegetalista que podemos encontrar no românico e no gótico,
em pilastras, colunas e colunelos. A própria passagem ao suporte
do pergaminho acentua este modo desenhado do dizer, sublinhado no desenho
em que um azul e ouro liquefazem a paisagem urbana e fazem vibrar a relação
entre a cúpula londrina de São Paulo e o Coliseu romano:
a paisagem é, em boa verdade, coisa deveras estranha sobre a terra.
E Dürer, que também foi um desenhador de selos, no lamento
"escrito" da sua finíssima tinta, parece adivinhar-se,
aqui e além, na mobilidade desta paisagem.
V "Em tempo de guerra" - disse-me o Rui Vasconcelos - "a
arte atenua a sua vocação erudita. E parece destinar-se
a esclarecer e a aprofundar a vida do espírito. Mesmo quando o
céu é escuro, pesado, áspero e se transforma numa
atmosfera férrea capaz de esmagar o mar e a planície. Julgamos
que tudo isto se está a passar num sítio longínquo,
numa geografia que não nos pertence. É um erro: o esconderijo
desenhado no veio da montanha, o fosso onde vai explodir, breve, a morte,
passa-se ao nosso exacto lado. É um odor vivo e logo um odor de
cadáver que implode nas nossas próprias veias." "Em
tempo de guerra" - diz o Paulo Brighenti - "há um instante
que se confunde com uma massificada migração. Ontem, aproximei-me
de um homem, um rapaz ainda, provavelmente eslavo. Fiz-lhe algumas perguntas:
se tinha fome, se tinha sede, se tinha frio. Insisti. Fixou-me com uns
olhos frios e sombrios. Depois, com irritação, atirou-me
uma frase, que não entendi, mas que me pareceu uma negação.
Ofereci-lhe um cigarro. Aceitou-o com indiferença. Deu duas ou
três fumaças e atirou-o para o chão, esmagando-o.
E, logo de seguida, como quem se desculpa da sua insolência, dirigiu-me
um sorriso tão estranho, carregado de tanta humildade, que teria
preferido um olhar de ódio."
VI Em tempo de guerra, recorremos e aproximamo-nos da inspiração
que, tradicionalmente, encontramos no fraseado das Escrituras. Talvez,
por isso mesmo, um dos últimos passos desta jornada seja uma demorada
visita a Joos van Cleve, a Jan Gossart, a van Reymerswaelle, a Jan Provost,
a Bouts, a Gérard David, a van Aelst, a essa esplêndida educação
do género humano que oferecem os flamengos do Museu de Arte Sacra
do Funchal.
Novembro de 2001
João Miguel Fernandes Jorge
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