> texto
> curriculum
Abstrakt (Bild in Motion)
My Bloody Valentine
The Foyer Affair
São Paulo 24 Set 01
To the Mountain Top
 
 

  Rui Toscano tem revelado, ao longo dos anos, uma capacidade invulgar para expandir o seu campo de possibilidades criativas, a partir do recurso a diferentes media (escultura, som, vídeo, instalação, desenho) e da constante abertura do leque de ideias, sistemas de referência e soluções formais com que trabalha. Neste processo de irradiação, identificam-se linhas de continuidade, ora mais circunscritas, ora mais distendidas, que correm paralelas, se sucedem e se cruzam, formando diferentes genealogias ou constelações mais pequenas de obras. Todavia, esses factores de agregação – por exemplo, determinado tipo de referências, um material como o rádio-gravador, o género da paisagem, a cidade de São Paulo como motivo, certas características e soluções de ordem formal – são inscritos num movimento centrífugo, num impulso de alteridade em constante actividade no interior do seu trabalho.

  Numa primeira fase, entre 1994 e 1996, sobressai o interesse do artista por explorar referências, transferidas da sua vivência quotidiana, associadas à cultura rock e a certas expressões das culturas juvenis urbanas. É disso exemplo emblemático Bricks Are Heavy, de 1994, em que o duplo sentido da palavra “tijolo” (que, no jargão juvenil, designa o rádio-gravador portátil) funciona como ponto de partida na construção de um muro com catorze rádio-gravadores, cada um deles a tocar uma cassete gravada expressamente para esse efeito por um artista, músico, ou dj. Esta peça inaugurou uma genealogia, que se prolonga até hoje, em que o rádio-gravador é utilizado como elemento operativo no cruzamento entre objecto, som e linguagem. Desde então, o som enquanto matéria constitutiva da obra e da experiência da sua percepção tem sido uma característica saliente de grande parte do trabalho de Rui Toscano. No ano seguinte, realizou (They Say We’re Generation X, But I Say We’re Generation Fuck You!), treze rádio-gravadores alinhados na parede de modo a comporem a letra X, que reproduzem ininterruptamente a frase que dá o título à peça, exclamada durante um concerto por um mc dos Cypress Hill. Mais metafórica a primeira peça, mais tautológica a segunda, na relação entre forma e linguagem, são ambas significativas de uma tendência para uma abordagem formal reduccionista, para uma economia de meios expressivos, que atravessa o trabalho do artista e que, em determinados casos, estabelece fortes afinidades formais com o minimalismo.

  A relação com o minimalismo, expressa naquelas duas obras pela utilização do rádio-gravador como forma elementar de uma construção serial, é sempre assumida numa dimensão crítica ou desviante: ao reutilizar o léxico formal característico do minimalismo, o artista contradiz, pela utilização do som e dos títulos na construção de significados, a pretensão que lhe estava subjacente (comum às tendências mais marcantes do paradigma modernista) de instituir a arte como realidade autónoma, de a definir como território liminarmente separado da realidade exterior, com a consequente repressão da subjectividade e da representação. Assim, em Black Painting (Perfect Lovers) (1997), temos uma pintura negra (citação literal das pinturas negras de Ad Reinhardt) assente sobre dois rádio-gravadores idênticos que reproduzem o som de um casal a ter relações sexuais (citação indirecta de Perfect Lovers do Felix Gonzalez-Torres). Dá-se um violento curto-circuito nas noções de transcendência e metafísica, e na correspondente experiência estética, associadas a muita da tradição da pintura monocromática, nomeadamente, às pinturas de Ad Reinhardt. Esta estratégia, expressa através da oposição não hierarquizada, e sem síntese possível, entre tipos antagónicos de valores e de experiências (espírito versus corpo, idealismo versus materialismo, contemplação versus consumo, sagrado versus profano) daria origem, no mesmo ano, a The Accelarating Collision of Past and Future in the Postmodern Era, fotografia digital que representa um Ferrari a embater contra uma pintura paisagística de Michael Biberstein, pintor contemporâneo que procurou reactualizar a tradição romântica do sublime. T (1998) é outro exemplo eloquente, no modo como a redução das formas e do som a um elemento mínimo, a primeira letra do apelido do artista, ganha uma conotação antropomórfica sob a égide da auto-representação: o espectador confronta-se com um corpo escultórico em forma de T, com a altura do artista, que emite (através de um rádio-gravador colocado no interior aberto do paralelepípedo superior horizontal) a sua voz a pronunciar de modo inexpressivo, com intervalos de 14 segundos, essa mesma letra. Refira-se, por outro lado, Whistling in the Dark (2001), que se liga a Black Painting... e The Accelarating Collision… numa espécie de trilogia, cujo denominador comum é o comentário crítico sobre a arte e a história da arte a partir de um confronto entre elementos retirados da história da arte contemporânea e outros enxertados da realidade comum: três paralelipípedos monocromáticos, pintados com as cores primárias e dispostos verticalmente, relacionam-se com um quarto paralelipípedo, um rádio-gravador preto, que debita o som do artista a assobiar um excerto do hino comunista da Internacional. Sem a agressividade iconoclasta das obras anteriores, Whistling in the Dark encerra essa trilogia como uma espécie de monumento fúnebre, de homenagem post mortem, à escultura minimalista. Poder-se-á ainda evocar o uso da cor monocromática em
My Bloody Valentine (2000) e The Foyer Affair (2001), onde desempenha um papel muito activo na produção de sentido, através da sua inscrição na narrativa e da sua relação com a música.

  Black Painting... e The Accelarating Collision... trouxeram para o cerne do trabalho de Rui Toscano as questões da apropriação e citação da arte. Desde então, a história da arte passaria a ser explicitamente convocada em muitas das suas obras, através de referências particulares ou genéricas, escolhidas segundo uma lógica de afinidades electivas, que vão de Ad Reinhardt a Félix Gonzalez-Torres, de Michael Biberstein a Gerhard Richter ou Bruce Nauman, da tradição da pintura monocromática ou da escultura minimalista americana à pintura romântica de paisagem.

  As referências da cultura rock sobrevivem indirectamente no seu trabalho, através dos títulos de algumas obras, nos quais o artista continuou a apropriar nomes de bandas, de discos, ou de temas musicais. Em contrapartida, elas transferem-se para os Tone Scientists, projecto desenvolvido desde 1996 com Rui Valério e Carlos Roque, a partir da sua representação como uma típica banda rock.

  Desde 1996, mas com maior ênfase a partir de 1999, depois de uma intensa actividade de video jamming no seio do colectivo Dub Video Connection, o trabalho de Rui Toscano tem-se desdobrado pela utilização do vídeo. São tão diferenciados os parâmetros definidos pelo conjunto desta produção (do ponto de vista dos temas, das técnicas, das soluções formais e dos quadros de referência), tão vincadas as linhas de descontinuidade que a atravessam, que se torna impossível propor uma síntese minimamente clarificadora dessa produção. O seu trabalho em vídeo permitiu-lhe fazer uma inflexão em relação ao pendor conceptual do seu trabalho anterior. É interessante verificar como a pintura se instaurou, em vários dos seus vídeos, como horizonte de construção das imagens e da experiência de percepção do espectador.