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LA
PIEL DE NADIE
Desenhos de Susana Solano
Aurora García
Os desenhos que Susana Solano reuniu sob o título de La piel
de nadie constituem um gesto prolongado e heterogéneo, ou, dito
de outro modo, uma pluralidade de gestos sucessivos que enchem por completo
a superfície de papel e acaba por se fundir num ritmo unitário
frequentemente explosivo. Assim é, o ligeiro suporte converte-se
em campo de acção onde não há prioridades
compositivas nem formais, porque todo ele está povoado em primeiro
termo e tudo nele aflora com a mesma intensidade e energia desde o magma
e a espessura que penetram no coração da natureza.
A artista
estabelece uma relação física sem mediações
com estas obras trabalhadas empregando a mão, frequentemente as
duas mãos, a partir de pigmentos e látex que aplica à
resistente folha branca mediante pressões, roces e movimentos que
encerram tanto a violência como a carícia do tacto. Uma forma
de actuar que de modo algum deve surpreender se levarmos em conta que
boa parte da produção escultórica de Susana Solano
com pranchas de ferro ou peças de chumbo , em particular
a realizada até 1987, põe ênfase no tratamento manual
e nas suas reproduções sobre o material metálico.
E algo semelhante podemos dizer no que se refere à importância
da intervenção manual quando se trata de esculturas mais
recentes em que predomina o uso da rede metálica, modelada na sua
ductilidade como se se tratasse de tecidos de origem vegetal ou animal
dispostos a serem franzidos, abaulados ou trançados. Neste sentido,
ainda não se insistiu suficientemente na extraordinária
capacidade desta artista para tratar a pele dos metais como se fosse a
sua própria pelle, orgânica e sensível, capaz de inchar
e contrair-se, de receber marcas imprevistas e de mostrar feridas ou cicatrizes.
Voltando
aos desenhos, que na realidade estão perto da pintura pelos meios
utilizados, embora também intervenha a grafite, um aspecto que
os caracteriza é a imediatez da sua execução. São
transferências de energia em estado puro onde o tacto se erige em
factor primordial porque não quer que algo fique no caminho da
transmissão sem chegar ao seu destino no papel. Trata-se de um
campo de liberdade plena onde é possível descarregar o que
a esfera das sensações guarda, já que, como afirmou
Leonardo da Vinci, todo o nosso conhecimento vem-nos das sensações1.
No entanto, esse depósito sensorial manifesta-se aqui qual torrente
que leva consigo múltiplos ingredientes cujos perfis não
se reconhecem logo devido à força e à velocidade
que os arrastam: ante um fenómeno assim, o que importa é
a visão da totalidade, e deixar que a imaginação
se adentre na densidade ambígua da corrente impetuosa.
Esta
pele de ninguém possui o dom da ubiquidade. É
talvez um modo de apelar à natureza, da qual tudo e todos fazemos
parte. É a Natureza sentida de perto, fundida na própria
carne, nas próprias mãos, nas mesmas luzes, sombras e correntes
que encontram refúgio no espaço interior da artista. A negação
absoluta desse ninguém bem pode encerrar a afirmação
generalizada de tudo ou todos; quer dizer, o que
nada exclui. E precisamente essa percepção total submetida
ao tempo, em instantes diversos, essa carga indiscriminada das impressões
que se vão produzindo na alma é o que não tem rosto
definido, mas pertence a uma dinâmica especular que projecta gestos
de variado signo em múltiplas direcções e que reverte
na obra lançando os seus fluxos com respiração e
cor dissímil de um papel a outro.
Há
ocasiões em que estes desenhos parecem grafias automáticas
e rebeldes, uma espécie de grafias anticaligráficas, percorridas
inteiramente pelo relâmpago que se ilumina à margem de qualquer
prognóstico e criadoras de uma trama espessa com signos herméticos
que é possível vislumbrar na água, na atmosfera,
na terra e até no fogo.
Os pigmentos
de tendência obscura percorrem completamente o campo pictórico
movidos pela água e pela acção manual. Raios de luz
procedentes da claridade do suporte ou do uso de outro colorante contrastado
atravessam-no não sempre abertamente mas às vezes com dificuldades
para franquear a barreira sombria, já que a iluminação
costuma proceder do fundo. Trata-se de obras que não querem ser
representativas no sentido usual do termo, não informam acerca
de um ser, uma coisa ou um acontecimento concreto e, por outro lado, despertam
muitos ecos familiares no âmbito perceptivo porque, como referíamos
há um momento, a pele de ninguém bem poderia abarcar a pele
de todos e de tudo. Dá a impressão de que buscam um estado
de indeterminação solidário com a totalidade do mundo,
com os fenómenos essenciais que o constituem e, mesmo assim, competem
directamente ao homem.
O conjunto
da escultura de Susana Solano também não se situa num nível
representativo concreto, como ocorre com boa parte da obra tridimensional
da história e da actualidade, por muito que numerosos objectos
tridimensionais contemporâneos tendam à abstracção
do modelo determinado que serve de referente, mas nasce numa esfera simbólica
cada dia mais ampla que conduz a caminhos onde a experiência física
e as impressões mentais se enlaçam numa visão do
mundo globalizante, sempre exposta desde a personalidade singular da artista.
Este caminho expandido, que torna tangível ou sugere ante nós
aquilo que em arte é mais próprio da pintura em virtude
do carácter ilusório que se atribui a esta, resulta pelo
menos pouco frequente ainda hoje, talvez pela dificuldade que significa
segui-lo através dos materiais e condições da prática
escultórica, por outro lado continuamente renovada nos seus conteúdos
e propostas.
Uma
prova de que a Susana Solano lhe interessa obviar a distinção
das linguagens específicas da arte a fim de conseguir um prolongamento
sem fissuras entre eles, uma compatibilidade absoluta na sua convivência,
radica em que agora situa também a certa distância do solo,
sobre rodas e emoldurados numa estrutura de ferro e vidro, desenhos de
considerável tamanho à volta de 130 centímetros
de lado dialogando de dois em dois e, por seu lado, estabelecendo
um discurso com o resto das obras sobre papel que estão penduradas
na parede da sala de exposições segundo um ditado mais convencional.
Esta translação parcial do desenho ao campo da escultura
já foi levada a cabo anteriormente pela artista no que se refere
à fotografia. Sem ir mais longe, em Varanasi III, que mostrou recentemente
em Granada e Sintra. Nesta obra, que não significa um caso isolado
nas realizações do último período de Solano
e que também aparece embutida entre ferro e vidro, desdobram-se
duas partes no espaço: uma na zona inferior do muro, e outra a
escassa distância da primeira, mas levemente erguida sobre o pavimento.
Sob o ponto de vista conceptual, este par de imagens instantâneas
obtidas com a câmara escura numa das suas viagens ao Oriente alonga-se
desde a parede ao pavimento onde costuma situar-se a escultura e unifica
as noções de trabalho tridimensional com a fotografia e
até com a pintura e o desenho tal como a autora o está a
desenvolver.
A fotografia,
no entanto, é para a artista o meio de que se vale quando quer
captar imagens existentes fora, imagens com todos os seus perfis, com
todos os seus atributos, à margem do processo de interiorização
e alargamento ou desvio da realidade objectiva que se produz quando intervém
em cheio o seu mundo pessoal, e que se põe de manifesto no exercício
da escultura. Isso não significa que o olho selectivo com a máquina
fotográfica tenha pouca entidade, mas o contrário. O olhar
de quem fotografa escolhe entre o que tem à volta e o instante
em que o capta de acordo com a sua conformação íntima;
é um acto selectivo que varia de uns olhos para ou-tros, de uma
disposição para outra. Mas, quando as obras não estão
manipuladas, levando as imagens para outros caminhos diferentes da sua
origem e Susana Solano não se recria aí, o carácter
representativo das referidas imagens resulta evidente. E, até agora,
é o único meio de que se serve para ter acesso ao que vulgarmente
se entende por representação na arte.
Com
o desenho, por outro lado, esses papéis onde não há
linhas nem aparente organização, mas unicamente um campo
de cor ou de cores que enche totalmente a superfície
com a pressão das mãos, produzem-se encontros inesperados
que descobre até a própria artista. Há momentos em
que parecem visões pulverizadas, tormentas de partículas
que se estendem por toda a parte, ou ondas embravecidas captadas desde
dentro, onde a sua forma se perde e só fica a sua essência.
Noutras ocasiões surge uma espécie de entramado arbóreo,
como se penetrássemos na espessura do bosque e se recortasse um
fragmento muito próximo do panorama. Ou assistimos a visões
de acidentes da terra captados com lentes de aumentar. Seja como for,
o que se destaca é a sua actividade, e muito menos a forma, que
é secreta ou possui mil caras. Neste sentido, recordamos a agudeza
das seguintes palavras de Goethe, escritas há já muito tempo:
Qualquer pessoa vê a matéria ante si. O conteúdo
só o encontra alguém que tenha que ver como ele. E a forma
é um segredo para quase todos2.
Susana
Solano vê a matéria como ninguém depois de muitos
e esplendorosos anos de dedicação à escultura. Mas
directamente vinculado à matéria está o universo
dos fenómenos que provocam a existência, que a modificam
ou a empurram para a morte. Esses fenómenos nem sempre possuem
contornos definidos, nem sequer corpo. No entanto, encerram uma força
dinâmica extraordinária inclusive na aparente quietude e
penetram no mais íntimo do homem, condicionando a sua natureza.
Consciente disso, a artista não se circunscreve só ao meio
externo e perceptível com o sentido da vista, mas que põe
em funcionamento tudo aquilo capaz de extrair o que reside no plano intangível
do ser humano, um lugar complexo na sua fixação e discernimento
que apresenta infinitas variedades.
Os desenhos,
na sua condição gráfica e directa, já que
para a autora são isso e não pintura, permitem aflorar o
que aninha no mundo interior e comprovar como significa uma continuidade
do que se encontra fora de si mesmo, deixado aparte o espinhoso e discutível
problema da definição das formas, que não conta com
inte-resse prioritário aqui. São uma metáfora da
vida no sentido mais amplo, das vibrações aparentes e ocultas
que fazem latejar as coisas, das tempestades a que se segue uma calma
por algum tempo duradoira, da pele negada no próprio título
talvez porque não deseja nenhum tipo de fixação.
A existência
adquire maior sentido se é permeável à variedade
de manifestações vitais, à diversidade de paisagens
e culturas. Susana Solano manifestou sempre essa condição
aberta, inquiridora e solidária. As suas frequentes viagens pelo
mundo acercam-na a realidades diferentes das que vive e isto contribui
para a ampliação da sua percepção, que acaba
revertendo nas obras. A propósito das viagens, Montaigne dizia:
A alma está em contínuo exercício, observando
coisas desconhecidas e novas; e não sei de melhor escola, como
afirmei muitas vezes, para dar forma à vida há que propor-lhe
incessantemente a diversidade de tantas outras vidas, outras ideias, outros
costumes, e fazer-lhe gostar dessa perpétua variedade de formas
da nossa natureza.3
1. Leonardo
da Vinci, Aforismos, Madrid, 1997, p. 40.
2. J.W. von Goethe, Máximas sobre arte y artistas,
em Fragmentos para una
teoría romántica del arte, Madrid, 1987, p. 173.
3. M. De Montaigne, Páginas inmortales, Barcelona, 1993, p. 1º20,
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