RAQUEL FELICIANO
Sba*
*em alfabeto hieroglífico egípcio: a porta / a estrela
Sábado, 26 de Maio, 18 horas
Seguido de conversa com:
Raquel Feliciano, Maria João Branco e Rodrigo Silva
a porta… A estrela, será um buraco no céu? Uma porta através da qual passa a luz? (…)
— Se eu disser 'o céu', imagino o céu que vi; se escrever o seu símbolo, não imagino de todo o céu que
vi. Se disser 'as estrelas', imagino os pontos brilhantes que vi; se desenhar estrelas de cinco braços,
— já não são os pontos brilhantes que vi.
Então, se os nossos mestres figuraram estas coisas através dos signos, que não são as suas imagens, é porque
quiseram dizer outras coisas que não são para olhar com os olhos, mas interiormente com o coração?"
in Isha Schwaller de Lubicz, Her-Bak "Pois Chiche", Flammarion, Paris
16 fotografias a preto e branco e 4 esculturas geométricas, minimalistas.
No total, a evocação de um confronto subtil mas ancestral: de um lado, a atracção magnético-mineral de pendor erótico pelas trevas, a noite, a terra — em que a ilusão de um segredo escondido no interior da terra faz pensar que pelo caminho do corpo se poderia ascender à alma e por fim ao espírito (ou que pela imagem se podia aceder à verdade); do outro lado e sem poderem conciliar-se: o anseio pela luz, princípio solar de claridade ofuscante — associada ao conhecimento, ao eidos, ao domínio do espírito, que "desce" para se confrontar à matéria pelo intermédio da alma. A alegoria da caverna de Platão ou o périplo de Dante na Divina Comédia são relatos da passagem entre estados, da escuridão para a luz. Em ambas, o caminho é o do esforço dialéctico ascencional tendo por base a recusa das aparências e da cupidez. Para um artista, equivaleria a resistir à tentação de querer fixar ou concretizar uma visão interior numa forma exterior fixa, estimuladora dos sentidos ( para não falar em seduzir os espectadores ou obter ganhos materiais com ela). Na base de várias iniciações, a queda de Psyche na matéria representava o estado primário da humanidade. O neofito era levado a confrontar-se com a sua natureza terrena e a escolher: vencê-la e "morrer" para o mundo profano e renascer Outro, ou enebriar-se dela e perecer do espírito. O artista é como um neofito, confrontado às tentações enebriantes dos sentidos ou falsos labirintos das impressões, tanto quanto aos falsos labirintos virtuais do intelecto. É no entanto no confronto com essa sua condição que pode haver libertação. Sba, porta e estrela… entre os dois homónimos na língua misteriosa hieroglífica do Egipto antigo, um tecido subtil entrelaça-se através de um fio — o da abertura e passagem ou salto possível para outra dimensão, outra fractalidade. Passagem não isenta de armadilhas e dificuldades — jogos de espelhos, véus, miragens e tentações.
Raquel Feliciano, Porta33, Maio de 2012
Raquel Feliciano: Biografia (resumo)
Raquel Feliciano nasceu nas Caldas da Rainha em 1983.
Licenciada em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, frequentou em 2007 a Universität der Künste (Berlim) como bolseira Erasmus. Desde então, tem desenvolvido actividade enquanto artista e educadora, interessando-se pelo estudo de modelos pedagógicos que possam responder às necessidades de uma maieutica do espírito. Trabalha no serviço educatico do C.A.M. (F.C. Gulbenkian), tendo estado associada a vários outros projectos pedagógicos, com crianças e adultos, através do desenho, da música, jogos cooperativos e debates orientados.Enquanto artista plástica assinou as exposições individuais O Fogo de Heráclito no Project Room do CAV, Coimbra (2010); Matéria prima na Tabacaria, Plataforma Campanhã, Porto (2010), e desenho-fotograma na Alecrim 50, Lisboa (2009).
Das exposições colectivas, destacam-se: Exposição #5. Encontro: paisagem e abstracção, BES arte & finança (2010); colectiva com Sérgio Dias, Joana Escoval, Diogo Pimentão, Francisco Pinheiro, Francisco Tropa e Pedro Tropa no Museu Geológico de Lisboa (2009); 7 Artistas ao 10º Mês, Fundação Calouste Gulbenkian (2008); Land_scape, Hospital Júlio de Matos (2008); Rundgang, UdK, Berlim (2007); Finalistas de Desenho da FBAUL, Finalistas de Pintura da FBAUL, SNBA (2007); Analogónia (split-show com Mónica Gomes) na Plataforma Revólver (2006); Projecto Rio, Moinho do Ananil, Montemor-o-Novo (2005) e 3º andar, segundo no nº56 da Rua Ivens ao Chiado, Lisboa (2004).
Rodrigo Silva: Biografia (resumo)
Rodrigo Silva nasceu em 1976. É licenciado em Filosofia (1998) pela FCSH-UNL, com uma tese sobre a questão da imagem e da história em Walter Benjamin e doutorado em Cultura Contemporânea (2007) pela FCSH-UNL, com uma investigação sobre o pensamento do espaço na filosofia francesa contemporânea. Professor Adjunto da Escola Superior de Arte e Design de Caldas da Rainha (da qual é Sub-Director desde 2010), onde lecciona desde 1998 na área da teoria da arte, da estética e da filosofia contemporânea, é também investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da FCSH-UNL. Conferencista em várias instituições na área da cultura e das artes contemporâneas, tem várias publicações em revistas académicas, onde tem escrito sobre filosofia contemporânea, artes visuais, teatro e literatura e trabalhado sobre autores como Maurice Blanchot, Jean-Luc Nancy, Jacques Derrida, Bernard Stiegler, Valère Novarina, Pascal Quignard, entre outros. Editou recentemente o volume A república por vir – arte, política e pensamento para o sec. XXI (ed. Fundação Gulbenkian, 2011).
Maria João Mayer Branco: Biografia (resumo)
Maria João Branco nasceu em Lisboa em 1974. Estudou Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e na Università degli Studi di Pisa (Itália). Doutorou-se com uma tese sobre a estética de Nietzsche sob a orientação de Maria Filomena Molder. A par da actividade académica, tem sido responsável por cursos teóricos como Professora Convidada no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual e escrito textos para diversas exposições de artes plásticas. Actualmente é docente no Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa.
Legenda da imagem: Porta, 2012. Prova de brometo de prata em papel baritado, 27x40,5cm