CHUVA DE JASMIM
SHAHD WADI
Acolhimento da apresentação do livro
PORTA33 — 22.07.2025 — 18h30

CHUVA DE JASMIM
SHAHD WADI

APRESENTAÇÃO DO LIVRO

POR ELISA SEIXAS

PORTA33
22.07.2025 — 18h30

Rasgam as entranhas do meu corpo palestiniano frases e palavras em português, um idioma que ainda vou aprendendo. Resisto com toda a força, só algumas conseguem escapar. Aperto os lábios diante da impossibilidade de falar do meu corpo que não é, do seu lugar que é nunca. Não digo a nenhuma alma que não distingo o «cá» do «lá». Nem que as línguas e os desejos acontecem em mim em simultâneo. Não consigo, não consigo, não consigo soletrar o nome árabe de quem morreu ontem em Gaza, nem no dia seguinte. Fecho a boca perante o caminho da história da minha família que foi expulsa da sua terra após a catástrofe palestiniana Nakba, em 1948. Coloco a mão à frente da minha voz para evitar um erro de português, enquanto conto uma piada ou até um sonho de liberdade, mesmo se toda a liberdade. Não declamo nada. Aguento um golpe atrás de outro de um verso que me quis abandonar. Mantenho o silêncio.
Hoje trago comigo este livro porque o meu corpo desiste e está finalmente poema. A bandeira, a dança, a buganvília e o anjo juntam-se para desentupir a caneta de todas as minhas línguas falhadas, obscenas e belas. Sem consentimento, o meu fogo e as minhas papoilas soltam-se e eu liberto os meus rabiscos para que o «erro» se torne um verso, o povo um pássaro, o exílio um regresso e eu uma fronteira. Escrevo um poema, um livro de poemas, para que haja Chuva de Jasmim.

Este será o primeiro livro palestiniano da poesia portuguesa. Ou vice-versa? Shahd Wadi fez de Portugal a sua morada — até que ir para casa seja possível. Enquanto a Palestina estiver ocupada, o mundo é a Palestina.

Alexandra Lucas Coelho



Shahd Wadi, Chuva de Jasmim
Editorial Caminho
Portugal, fevereiro de 2025
104 p. ; 134x209x6mm
ISBN 9789722133258

Shahd Wadi é palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Exerce a sua liberdade no que faz, viajando entre escrita, performance, curadoria, investigação e tradução. A sua publicação mais recente é o livro de poesia Chuva de Jasmim (Caminho, 2025), sendo também coautora nas antologias Volta Para Tua Terra: Não Há Abril Sem Imigrantes (Urutau, 2024) e Ask the Night for a Dream: Palestinian Writing from the Diaspora Palestine Writes, 2024). Procurou as suas resistências ao escrever a primeira dissertação de doutoramento em Estudos Feministas do país, pela Universidade de Coimbra, que serviu de base ao livro Corpos na Trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio (Almedina, 2017). Foi nomeada recentemente Escritora Universal Galega de 2025. Nas suas práticas artísticas aborda a ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.