Imagens
Pintura
PORTA33 — 13.04 — 14.05.1993
IMAGENS
“Quando está uma bela noite estrelada,
o senhor Palomar diz: _ Tenho que ir
observar as estrelas”.
Italo Calvino, Palomar
Achei que fazia sentido iniciar este olhar sobre as pinturas de Jaime Lebre com uma citação do
Palomar.
Tal explica-se porque me parece iniciar alguma coisa de comum entre Jaime Lebre e o senhor Palomar,
algo que tem certamente a ver com a presença de um olhar disperso, e acutilante, permanentemente à
procura de um sentido inédito para as coisas, só possível de descobrir através da sua observação
atenta.
Para este construtor de imagens, que são sempre menos divertidas do que parecem e onde a ironia e o
insólito costumam caminhar a par com a irrisão, dando forma a um discurso animado pela presença de
uma sabedoria que, longe das certezas, se afirma como incansavelmente à procura de uma lógica
próxima dos limites do inconcebível, o alvo é o alcançar daquele sentimento indefinível a que as
palavras não conseguem chegar.
O carácter aparentemente desconexo destas colagens sem cola, todas percorridas por uma perceptível
intenção de desequilíbrio e tensão, que faz coexistir elementos do discurso publicitário, da
ilustração e da banda desenhada com os valores próprios do universo pictórico, começa logo na
utilização dos suportes e técnicas tradicionais da pintura para com eles produzir combinações pouco
ortodoxas, num processo de desmontagem lúdica, que explora a ambiguidade e o humor, ao mesmo tempo
que recusa qualquer condicionamento ao livre processo de criação de imagens.
Muitos elementos que encontramos nas imagens de Jaime Lebre podem parecer-nos familiares, no
entanto, a individualidade que as inesperadas e inauditas combinações adquirem dota-as de um
misterioso fascínio, que parece nascer de uma deriva de sentidos, à descoberta de um significado
oculto e inesperado, que o ecletismo dos géneros e origens das visões que as integram consegue, como
por encanto, gerar.
Por isso, falar a propósito delas, considerando apenas os aspectos que se prendem com a forma, a
composição, a cor ou a escala, seria o mesmo que, perante a corrente avassaladora de um rio,
discorrer sobre o encanto das suas margens. Esses aspectos do domínio do pictórico são, nas imagens
de Jaime Lebre, apenas o contentor dessa volúvel transparência de que são feitas as súbitas
iluminações. Daí que elas assumam para o espectador o carácter de verdadeiras revelações, de
epifanias do já visto. É pois necessário olhá-las como quem contempla as estrelas. E, no essencial,
é isso que elas são: estrelas novas no firmamento da civilização de imagens que caracteriza este
tempo de atenções errantes e volúveis e cuja observação se aconselha seja feita a olho nu, com a
pureza e o descomprometimento que o acto de olhar sempre deveria ter.
António Bacalhau