O DESFAZER DO TEMPO
Uma investigação de Nicolás Paris com
Baldios Arq. Paisagistas e Paulo David
Porta33 — 06.06.2026 — 15.08.2026

O DESFAZER DO TEMPO

UMA INVESTIGAÇÃO DE NICOLÁS PARIS COM
BALDIOS ARQ. PAISAGISTAS E PAULO DAVID


06.06.2026 — 15.08.2026
Inauguração: sábado, 6 de junho, 18h

/ 18h Abertura da exposição
// 19h Conversa com Nicolás Paris, Catarina Raposo, Paulo David e Paulo Pires do Vale

Em 1997, a PORTA33 acolheu a exposição de Manuel Zimbro História Secreta da Aviação. No âmbito desta investigação, surge o texto “O desfazer do tempo”, estruturado a partir do modelo de entrevista para o Diário da Estação Polar de Svalbard. Nele, Zimbro convoca uma reflexão sobre o tempo, a visão, a atenção e o acto de fazer. Este tempo de que Manuel Zimbro nos fala é denso, poroso, relacional e sensível, ao ponto de revelar a profundidade através da superfície: quando afirma que a superfície da terra contém uma imensa profundidade, Zimbro aproxima-nos de uma percepção em que o visível deixa de ser apenas aparência e passa a ser campo de escuta, relação e revelação. Em Zimbro, o tempo desfaz-se quando deixa de ser espera, prazo ou medida. O tempo deixa de dominar a acção quando a atenção se torna inteira. Para ele, o “desfazer o tempo” ocorre quando se está “plenamente atento”; e é nesse estado que, finalmente, diz ele, “vemos a árvore”. Trata-se de devolver presença ao mundo: ver, sentir e criar sem a distância imposta pelo hábito, pela expectativa ou pela finalidade.

Este entendimento volta a ecoar na forma como nos posicionamos perante a Escola da Vila, no Porto Santo: numa atenção cuidada aos vários tempos que se cruzam para formar outro espaço de presença. Um tempo com muitos tempos dentro. Um tempo que convoca o passado para o inscrever, com responsabilidade, no aqui e no agora. Essa confluência manifesta-se através de um trabalho de atenção ao território; de um mapeamento do olhar que perscruta o visível para o compreender e reinscrever (Paulo David); de uma relação directa com a documentação que Chorão Ramalho nos deixou; e da sua reinterpretação à luz de uma nova inscrição do edifício na comunidade e na ilha (Catarina Raposo). Os planos originais abrem-se, assim, à ressonância que ecoa da própria ilha e adaptam-se ao tempo presente, em diálogo.

Neste processo, aquilo que existe é activado. O edifício, os seus desenhos, os seus usos possíveis, a sua memória e a sua comunidade surgem como partes de uma mesma força. Uma forma-força que cuida da relação entre trabalho e lazer, entre escola e território, entre pertença e usufruto (Nicolás Paris). A reabilitação do edifício é gesto de continuidade e de confluência, determinado pela relação atenta de quem olha para o aqui e o agora e nele entende todos os substratos do que há.

Manuel Zimbro lembra-nos também que “Os nossos antepassados estão aqui connosco!”

O passado permanece no presente como presença activa, herança, responsabilidade e matéria de relação. A actualidade, diz Zimbro, “não é fixa”. Nessa impermanência abre-se a possibilidade de reactivar o que recebemos, de cuidar e de transferir para outros tempos. Também por isso, O desfazer do tempo designa uma confluência. O tempo desfaz-se para que diferentes temporalidades possam comparecer: o tempo do projecto original, o tempo da escola, o tempo da comunidade, o tempo da ilha, o tempo da reabilitação e o tempo do uso futuro que o jardim pretende abrir como possibilidade de ver e fazer para cuidar. Todos confluem numa presença significativa para a inscrição da Escola do Porto Santo como Unidade Patrimonial do Território.

Zimbro escreve ainda, no contexto de história secreta da visão, que aquilo que é novo “não é do tempo” e que “o agora é fulminante”. Esta ideia permite ainda aproximar o projecto da Escola da Vila de uma ética da atenção, na qual o presente escuta o passado com liberdade suficiente para o tornar novamente vivo.

Manuel Zimbro, sabemos e já o referimos por diversas vezes, foi quem despertou a acendalha de um espaço-escola, de uma forma de dedicação à nobre profissão de transmitir saberes, através da relação, uma atenção ao mundo. Como não o convocar, então, neste desfazer do tempo, para uma relação plena com o aqui e o agora?

PORTA33



ÁRVORE-RELÂMPAGO
NICOLÁS PARIS

Árvore-relâmpago é um projecto de investigação desenvolvido entre Porto Santo e a Madeira sobre as relações entre fenómenos naturais, arquitectura, geometria e aprendizagem colectiva. A proposta parte dos encontros realizados durante a residência Árvore-relâmpago, concebidos como um sistema aberto de troca, onde diferentes entidades, pessoas, materiais, perguntas e formas de conhecimento puderam aprender umas com as outras através de processos lentos, erráticos e cooperativos.

A investigação toma como ponto de partida as estratégias do arquitecto Raúl Chorão Ramalho e a sua visão da arquitectura como uma forma de resistência sensível perante modelos autoritários e monumentais. As suas ideias sobre a cultura construtiva local, a escala doméstica, a ligação entre vegetação, minerais e arquitectura, bem como a importância do jogo, da luz e da construção de espaços para a imaginação, funcionam como guia conceptual para activar novas relações com o edifício e com as ilhas. Neste contexto, a exposição na PORTA33 opera como um espaço de experimentação, onde as intervenções funcionam como maquetas, ensaios e provas para uma futura adaptação da Escola da Vila, em Porto Santo.

A ilha e a sua topografia são entendidas como uma espécie de sala de aula expandida: um lugar de observação onde o vento, a erosão, as marés, o sal, as pedras, as suas formas de crescimento e as variações da luz se tornam ferramentas para imaginar outras temporalidades e formas de aprendizagem. A partir desta perspectiva, a exposição é concebida como um ambiente vivo, no qual a arquitectura, o desenho, o movimento e a conversa possam reorganizar continuamente as relações entre as pessoas e o lugar.

Mais do que apresentar objectos acabados ou representar conclusões, Árvore-relâmpago procura construir um sistema de relações em transformação constante. O projecto expositivo é entendido como um espaço para ensaiar novas formas de associação, escuta e aprendizagem mútua; um lugar onde materiais, corpos, geometrias e perguntas possam reorganizar-se colectivamente. Neste sentido, o projecto propõe abrir interrogações sobre como construir novas geometrias sociais, sensíveis e espaciais; como aprender a partir da instabilidade; e como transformar um edifício numa estrutura capaz de continuar a aprender e de se converter, novamente, noutro tipo de escola.

Nicolás Paris

DEBAIXO DO ASFALTO, O JARDIM
BALDIOS ARQUITETOS PAISAGISTAS

A exposição parte da vontade de qualificação dos espaços exteriores da Escola da Vila de Porto Santo, lugar onde, desde 2019, a Porta 33 desenvolve um projecto artístico com a comunidade porto-santense, através de residências e exposições que têm contribuído para um mapeamento colaborativo da ilha, após a desactivação da sua função como escola básica em 2018.

A exposição inicia-se com um conjunto de registos da ilha anteriores à existência da escola, estabelecendo um momento inaugural da investigação: uma aproximação simultaneamente precisa e ainda indeterminada. Estes materiais revelam o suporte de reflexão que esteve na origem do projecto e dispõem-se sob a forma de uma parede-atlas que compila o percurso desenvolvido para descobrir a pertinência da intervenção no grande vazio compreendido entre o corpo das antigas salas de aula e a cantina, hoje espaço da galeria.

Mapas, registos fotográficos e postais formam constelações documentais que articulam o espaço da escola com a ilha e com a vila, a Vila do Porto Santo, tornando visíveis as sucessivas camadas de complexidade e transformação deste território.

À relativa abstração do grande vazio asfaltado, outrora utilizado como campo desportivo, sobrepõe-se uma leitura progressiva dos sistemas que o sustentam — geológicos, topográficos, hidrológicos, climáticos e biológicos — e que fundamentam a proposta de transformação do recinto escolar. O projecto procura revelar o jardim latente sob a superfície pavimentada, reactivando a intenção presente no desenho original da escola, concebida pelo arquitecto Chorão Ramalho, que previa, no seu projecto de 1959, um jardim em torno do edifício, nunca concretizado.

Mais do que a substituição de uma superfície, a proposta assume a escavação do betuminoso como gesto operativo para revelar os substratos invisíveis que estruturam o lugar, tornando legíveis as condições ecológicas e culturais que o constituem.

O projecto de Nicolás Paris actua como catalisador deste processo através da reactivação da figura do hexágono e da presença de um jardim na cobertura, imaginados no projecto original de Chorão Ramalho, e apresentados numa exposição autónoma que inaugura em paralelo.

A exposição apresenta o projecto de transformação através de dispositivos próprios da representação da arquitectura paisagista: plantas, cortes, maquetas, diagramas e amostras materiais, construindo uma narrativa onde o jardim emerge como instrumento de relação entre a escola, a paisagem da ilha e a comunidade. Entre investigação, mapeamento e acção transformadora sobre o espaço, a exposição procura contribuir para uma leitura colectiva do território, agora reactivado pela nova vida da Escola da Vila.

BALDIOS Arquitetos Paisagistas

TERRITÓRIO, CONTINUIDADE E POTÊNCIA
PAULO DAVID ARQUITETOS

Na indagação sobre o território coloca-se a premissa - abre-se a possibilidade - como se pode fazer arquitectura antes do projeto? Accionar a questão, o tema da identidade deste lugar, ínsula.

O posicionamento geográfico do Porto Santo, na sua condição de ultraperiferia, acumula particularidades geológicas e morfológicas. A escassez hídrica desenha a sua condição árida e a sua agreste gestão, culminando num gesto de superação, uma ilha imersa no oceano.

Neste enquadramento é proposto desenhar a hospitalidade, redescobrir a relação com a história e a geografia, por forma a construir com sentido, construir sem apagar.

Explanando o exercício do método aberto, reuniram-se os documentos que serviram de base para este processo criativo e crítico. Através da leitura dos extractos do território, evidenciam-se as dissonâncias e os valores que potenciam investigações e provocações de novos programas.

Paulo David Arquitetos

BIOGRAFIAS

Nicolás Paris Vélez nasceu na Colômbia, em 1977. A sua prática explora as relações entre a aprendizagem, os processos materiais e as formas cooperativas de produção de conhecimento. Antes de iniciar o seu trabalho como artista, foi professor, assistente em escolas rurais e trabalhou como padeiro. Estas experiências constituem um ponto de partida fundamental na sua prática, ao situarem a aprendizagem e o fazer manual como modos de pensamento e de construção de sentido.
O seu trabalho desenvolve-se na intersecção entre o acto de desenhar, oficinas/happenings entendidos como formas de pedagogia experimental, intervenções ou arquiteturas incompletas, bem como vídeos, edições e publicações enquanto materiais pedagógicos. Através destes meios, concebe as obras como dispositivos e vínculos que investigam como se produzem as reflexões e como se transmitem as ideias. Ao longo do seu percurso, tem explorado sistemas informais de aprendizagem, os gestos do trabalho manual e as estruturas invisíveis que organizam a experiência colectiva. Os seus projectos partem, frequentemente, de materiais e imagens simples — diagramas, objetos quotidianos, ferramentas de trabalho — que funcionam como ativadores de processos de observação, troca e reflexão.
Mais do que produzir objetos e peças fechadas, a sua prática propõe estruturas abertas, nas quais o pensamento se desenvolve através do fazer, da réplica e da experimentação com a matéria.
O projecto Árvore-relâmpago dá continuidade a esta linha de investigação e funciona como um laboratório onde se entrelaçam processos biológicos, aprendizagem colectiva e diversas formas de imaginação política.

BALDIOS Arquitetos Paisagistas, surge em 2014 como coletivo resultante da fusão do trabalho de cinco arquitetos paisagistas. Desenvolve atividade no espetro alargado da arquitetura paisagista, com especial enfoque em projetos de paisagem e espaço público, destacando-se o Largo de 100 Soldos, os Jardins da Casa do Povo e do Mercado, em Ponte de Sor, Escolas públicas, intervenções integradas no programa Uma Praça em Cada Bairro, projetos de Habitação de Renda Acessível em Lisboa, o Museu Gaia Ambiente e o Museu dos Cabos Submarinos, na Horta, entre outros.
No âmbito curatorial, destacam-se os projetos Jardin de la Paix, em França, com a KWY, e Playground for Grownups, na Dinamarca, com a Superflex. A BALDIOS assumiu ainda a curadoria da 10.a edição do Open House Lisboa e integrou a representação portuguesa na 19ª Bienal de Veneza. A equipa é composta por Armando Ferreira, Catarina Raposo, Joana Marques, Pedro Gusmão, Samuel Alcobia, com Beatriz Líbano Monteiro, Marta Terlim, Gonçalo Santos e Ana Virtuoso.

Paulo David (Funchal, 1959) é arquitecto pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, onde se licenciou em 1989. Após doze anos em Lisboa, período em que colaborou com Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça, regressou à Madeira em 1996, fundando posteriormente o atelier Paulo David Arquitectos. A sua obra, profundamente ligada à leitura da paisagem, dos territórios frágeis e da condição atlântica, tem sido amplamente publicada e exposta em instituições como o Guggenheim, a Cité de l’architecture & du patrimoine, o Alvar Aalto Museum, o CCB e a Casa da Arquitectura. Recebeu, em 2017, o Global Award for Sustainable Architecture, em Paris, e desde 2022 é membro estrangeiro da Académie d’Architecture. Paralelamente à prática projectual, dedica-se à docência, lecionando no Politecnico di Milano e no Instituto Superior Técnico, entre outras universidades internacionais. Vive e trabalha no Funchal.

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