Em 1997, a PORTA33 acolheu a exposição de Manuel Zimbro História Secreta da Aviação. No
âmbito desta investigação, surge o texto “O desfazer do tempo”, estruturado a partir do
modelo de entrevista para o Diário da Estação Polar de Svalbard. Nele, Zimbro
convoca uma
reflexão sobre o tempo, a visão, a atenção e o acto de fazer. Este tempo de que Manuel
Zimbro nos fala é denso, poroso, relacional e sensível, ao ponto de revelar a profundidade
através da superfície: quando afirma que a superfície da terra contém uma imensa
profundidade, Zimbro aproxima-nos de uma percepção em que o visível deixa de ser apenas
aparência e passa a ser campo de escuta, relação e revelação. Em Zimbro, o tempo desfaz-se
quando deixa de ser espera, prazo ou medida. O tempo deixa de dominar a acção quando a
atenção se torna inteira. Para ele, o “desfazer o tempo” ocorre quando se está “plenamente
atento”; e é nesse estado que, finalmente, diz ele, “vemos a árvore”. Trata-se de devolver
presença ao mundo: ver, sentir e criar sem a distância imposta pelo hábito, pela expectativa
ou pela finalidade.
Este entendimento volta a ecoar na forma como nos posicionamos perante a Escola da Vila, no
Porto Santo: numa atenção cuidada aos vários tempos que se cruzam para formar outro espaço
de presença. Um tempo com muitos tempos dentro. Um tempo que convoca o passado para o
inscrever, com responsabilidade, no aqui e no agora. Essa confluência manifesta-se através
de um trabalho de atenção ao território; de um mapeamento do olhar que perscruta o visível
para o compreender e reinscrever (Paulo David); de uma relação directa com a documentação
que Chorão Ramalho nos deixou; e da sua reinterpretação à luz de uma nova inscrição do
edifício na comunidade e na ilha (Catarina Raposo). Os planos originais abrem-se, assim, à
ressonância que ecoa da própria ilha e adaptam-se ao tempo presente, em diálogo.
Neste processo, aquilo que existe é activado. O edifício, os seus desenhos, os seus usos
possíveis, a sua memória e a sua comunidade surgem como partes de uma mesma força. Uma
forma-força que cuida da relação entre trabalho e lazer, entre escola e território, entre
pertença e usufruto (Nicolás Paris). A reabilitação do edifício é gesto de continuidade e de
confluência, determinado pela relação atenta de quem olha para o aqui e o agora e nele
entende todos os substratos do que há.
Manuel Zimbro lembra-nos também que “Os nossos antepassados estão aqui connosco!”
O passado permanece no presente como presença activa, herança, responsabilidade e matéria de
relação. A actualidade, diz Zimbro, “não é fixa”. Nessa impermanência abre-se a
possibilidade de reactivar o que recebemos, de cuidar e de transferir para outros tempos.
Também por isso, O desfazer do tempo designa uma confluência. O tempo desfaz-se
para que
diferentes temporalidades possam comparecer: o tempo do projecto original, o tempo da
escola, o tempo da comunidade, o tempo da ilha, o tempo da reabilitação e o tempo do uso
futuro que o jardim pretende abrir como possibilidade de ver e fazer para cuidar. Todos
confluem numa presença significativa para a inscrição da Escola do Porto Santo como Unidade
Patrimonial do Território.
Zimbro escreve ainda, no contexto de história secreta da visão, que aquilo que é novo “não é
do tempo” e que “o agora é fulminante”. Esta ideia permite ainda aproximar o projecto da
Escola da Vila de uma ética da atenção, na qual o presente escuta o passado com liberdade
suficiente para o tornar novamente vivo.
Manuel Zimbro, sabemos e já o referimos por diversas vezes, foi quem despertou a acendalha
de um espaço-escola, de uma forma de dedicação à nobre profissão de transmitir saberes,
através da relação, uma atenção ao mundo. Como não o convocar, então, neste desfazer do
tempo, para uma relação plena com o aqui e o agora?
PORTA33