PEIXE-PATO
Laetitia Morais e Mattia Denisse

PORTA33 — 11.06.2021

PEIXE-PATO

Exposição de [exhibition by]

LAETITIA MORAIS E MATTIA DENISSE

Inauguração [opening] Sexta-feira 11 de Junho às 19h


Tomando como ponto de partida uma viagem relâmpago em tempo de pandemia, a exposição PEIXE-PATO parte de indícios recolhidos em incursões furtivas dos cumes às margens da ilha. Transições e oposições da mais variada índole, tais como os meros que nascem fêmeas e transitam para machos; bananeiras na neve; árvores sexuais e órgãos milenários; montanhas trespassadas; túneis ao inverso; vacas caídas no mar; arestas arquitectónicas a penetrarem o oceano, e outras leituras aquáticas e insulares que subiram à superfície da memória, são algumas das imagens retinianas, que servem de jargão à exposição. "Que peixe será aquele? Em verdade, só por nadar debaixo da água ele parecia um peixe. Se andasse ao cimo da água, ao lume dela, seria pela espécie de penas (eram penas, sem dúvida) que o cobriam, pelas barbatanas que pareciam dois pés, pelos toquinhos de barbatana que pareciam asas, pelo jeito cambaleante e vacilante de mover-se, um pato. Era, portanto, um peixe-pato."

"Daí em diante, raro era o dia em que ele não ia à pesca e o peixe-pato lhe não aparecia trazendo no bico um dos peixes de que ele mais gostava, para oferecer-lhe, e em que depois o peixe-pato se não deixava apanhar para, sentado o homem à beira de água, ficar no seu colo a receber as festas de que vibrava novamente, ronronando de satisfação."

excertos do conto História do Peixe-Pato, de Jorge de Sena (in Antigas e Novas Andanças do Demónio, Edições 70)

"Por outro lado, não se encontrava descontente na ocupação de soldado e não sentia necessidade, ou talvez fosse incapaz, de pensar seriamente no futuro. Por vezes, quando estava sozinho ou com os seus camaradas, fingia que era um mergulhador e que estava outra vez a passear pelo fundo do mar. Ninguém, claro, se apercebia, embora se tivessem observado com maior atenção os movimentos de Reiter, alguma coisa, uma ligeira variação na sua forma de caminhar, na sua forma de respirar, na sua forma de olhar, teriam notado. Uma certa prudência, uma premeditação em cada passo, uma respiração lenta, as retinas vítreas, como se os olhos tivessem inchado devido a insuficiência de oxigénio ou como se, só naqueles momentos, todo o seu sangue-frio o abandonasse e se visse de repente incapaz de controlar o choro, que, por outro lado, nunca mais chegava." (pp.773)

"Nessa altura, Reiter teria achado um sacrilégio mergulhar com óculos de mergulho. Escafandro sim, óculos de mergulho rotundamente não." (pp. 776, 777)

"De manhã saía, com as suas armas e uma mochila onde levava queijo, pão e meia garrafa de vinho, e caminhava até à costa. Aí escolhia uma rocha, fora da vista de todos, e, depois de nadar e mergulhar nu durante horas, estendia-se na sua rocha e comia e bebia e relia o livro Alguns Animais e Plantas do Litoral Europeu." (pp.776)

Bolaño, R. 2666. Lisboa: Edições Quetzal. (2009) Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra.

Laetitia Morais (1984). A sua prática artística desenvolve-se principalmente pelo meio do desenho, da instalação e do cine-vídeo.
Expõe com regularidade, a salientar: Ongoing Art Center, Tóquio; Peacock Art Centre, Aberdeen; General Public, Berlim; Mota Museum, Ljubljana; Experimental Intermedia Foundation, Nova Iorque; Galeria Municipal do Porto, Porto; CIAJG, Guimarães; Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas, Açores e Centro de Artes NYUAD, Abu Dhabi.
Atual doutoranda em Arte e Teoria Cultural, na Universidade de Artes de Zurique e na Universidade de Artes de Linz.

Mattia Denisse, 1967, Blois, França. Autodidata, vive e trabalha em Lisboa desde 1999. Em Portugal, destacam-se, nos últimos anos, as exposições individuais DUPLO VÊ (Casa das Histórias Paula Rego, 2016; Galeria ZDB, Lisboa, 2017); DEUS VERME (Galeria Caroline Pagès, Lisboa, 2017) e ARCHICONTO (Gabinete, Lisboa, 2018). No estrangeiro destacam-se TRIPOD. THE ANTHROPOLOGIST MONKEY VS THE ALCOHOLIC LIZARD (GAK Bremen, 2019); K CONTRA K (Nouveau Musée National de Monaco, 2020); e THEODORE ́S DREAM (West den Haag, 2020).
Nas coletivas, destaca-se QUARTO DE ESPANTO, EM TORNO DA COLEÇÃO DA CCG (CCC Castelo Branco, 2017, cur. Bruno Marchand); QUATRO ELEMENTOS (Galeria Municipal de Porto, 2018, cur. Nuno Faria); ANOZERO ́19 – BIENAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE COIMBRA. Publicou os livros CÂMARA DE DESCOMPRESSÃO (Dois Dias edições, 2011); LOGO DEPOIS DA VÍRGULA (autor e Barbara Says), 2011; DUPLO VÊ – O TAUTÓLOGO (Dois Dias Edições, 2017); e K CONTRA K (Dois Dias Edições, 2019).

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