PINTURA / DESENHO
PORTA33 e Galeria da SRTC — 31.05.1993 — 03.07.1993
Teoria particular das imagens
(para a beatriz, a leonor e também para o martim)
.tenho uma memória de uma coisa que tive. de um sítio em que ainda não/já estive mas podia
já/não ter estado.
tenho ideia que se não tive nada disto que digo ter tido. podia ter tido tudo aquilo que digo ter tido. um
urso que nunca me deram e eu vi numa montra. uma aventura adolescente numas ilhas possíveis.
.faço colecções de memórias minhas. quero dizer de coisas da minha memória. é a minha maneira de (me)
organizar (n)o mundo.
a minha memória é um caixote velhote onde junto as coisas onde guardo as coisas onde escondo as coisas onde
deixo as coisas. ou esse caixote é a minha memória.
mas também faço as minhas colecções de memória. quero dizer que as invento. que faço meu o que me é alheio.
que torno dos outros o que me cabe. que por vezes invento memórias de raiz. ponho-as na minha vida a primeira
vez como se sempre lhe tivessem pertencido ou pretendo esconde-las como se isso fosse possível – apagá-las.
afinal apenas as cubro escondo-as atrás de outras memórias.
.no meu sistema cada memória pode ser representada por uma coisa. em princípio, essa coisa é uma forma.
digamos, uma imagem/figura. ou, mais basicamente ainda, um “boneco”. esses bonecos articulam-se entre si
arrumam-se no espaço do meu pensamento e no próprio espaço físico que lhes destino. nada é definitivo e cada
uma das referidas imagens pode alterar-se constantemente em cada momento da construção destas minhas memórias
reunir-se a outras de modo inesperado mudar de forma e de sentido de cor e de papel.
nem sequer ando à procura de nada de definitivo de estável de certo apenas a tentar variantes alternativas
jogos de recreação da imaginação e decoração da realidade. às vezes sei o que vou fazer e faço-o – raramente.
outras começo sem saber nada, continuo cego durante muito tempo. desisto retorno insisto. é frequente
encontrar-me diante de uma ideia que acabei de construir ou de que prevejo a imagem final e sentir-me feliz.
posso dizer alegre – dão-me vontade de rir os resultados de algumas associações de cores gestos formas
matérias. ou não não dão.
.não há, portanto, muito de espírito no tipo de trabalho que pratico. o que há, fundamentalmente, é acção, a
acção do corpo nos vários momentos de escolher o modelo (o que é já capturá-lo), de o capturar (o que é já
registá-lo), de o registar (o que é já alterá-lo), de o alterar (o que é já transmiti-lo).
é difícil separar os elementos deste processo. é uma vertigem. em que pensas quando te precipitas no abismo
quando és tragado por uma vaga? o que sentes enquanto sossegadamente pensas num novo problema quando achas a
solução de um problema? fica tudo junto fica tudo ao mesmo tempo – não se distinguem os raios da roda que
roda.
tenho medo de me esquecer das coisas das pessoas dos tempos. tenho que construir uma memória. e tenho uma
memória que quero guardar. (de) que não (me) quero perder. que quero deixar. mas ninguém pode saber senão eu.
se não eu ia sentir-me tão frágil perdido sem poder olhar ser olhado. é tudo para mim o que faço – para os
outros esta sinceridade oferecida roubada cifrada. o mundo fica mais claro assim. toma novas formas. e mais
livre por isso e secreto enfim no meu coração. e tenho medo que a inteligência não me chegue ao
coração.
.eu sei o modo como faço valer estas imagens. e sei que nada disto vale para ninguém o que vale para mim. ou
não vale mesmo nada. e que para mim não sei o que valerá para além de valer a minha vida.
João lima Pinharanda
Lisboa, 10 de maio de 1993
SOFIA AREAL
1960 — Nasceu em Lisboa
1979/80 —
Textile Design Course no Hertsfordshire College of Art and Design, St. Albans, Inglaterra
1980/81 —
Foundation Course no Hertsfordshire College of Art and Design, St. Albans, Inglaterra
1981/84 —
Frequentou os ateliers de gravura e pintura no AR.CO, Lisboa.
1992 —
Participa na realização de um portfólio de gravuras no âmbito dum encontro internacional de gravura, no Centro
Cultural Francês de Tetouan, Marrocos.
— Execução de um Painel para SITTIS, Lisboa (com Sérgio Taborda)
— Representada na coleccão da Fundação de Serralves, Porto
EXPOSIÇOES COLECTIVAS (seleccão)
1982 —
"LAGOS 82, Lagos
1983 —
"ARTISTAS DA SNBA», SNBA, Lisboa
1984 —
"NOVOS NOVOS», SNBA, Lisboa
1989 —
"EUROARTE», Guimarães
— "ALDA NOBRE, MANUEL VIEIRA, SOFIA AREAL», Galeria Alda Cortez,
Lisboa
1990 — "EIAM 90» Exposição Ibérica de Arte Moderna, Caceres, Campo Maior, Badajoz
1993 — "ARCO», Madrid, Galeria Alda Cortez
— "MULHERES NA COZINHA» (comissariada por Ana Miranda Rodrigues), Centro
Cultural de Lisboa
— "JOVENS ARTISTAS DA C.E.», Seul, Coreia do Sul
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
1990 — Galeria Alda Cortez, Lisboa
1991 — Galeria Alda Cortez, Lisboa
1992 — Galeria J.M. Gomes Alves, Guimarães
— Galeria Alda Cortez, Lisboa
1993 — Galeria J.M. Gomes Alves, Guimarães
— Galeria da Secretaria Regional do Turismo e Cultura, Funchal; Galeria
Porta 33, Funchal
Governo Regional da Madeira
Hotel Savoy
TAP Air Portugal/Delegação da Madeira
Grafimadeira
Sileno Madeira
Diário de Notícias - Madeira
Exposição organizada em colaboração com a Galeria Alda Cortez
na Galeria da Secretaria Regional do Turismo e Cultura e na Galeria Porta 33, em Junho de 1993