João Miguel Fernandes Jorge
Uma Quase Certeza Sensível

Primeiro, é-nos dado o domínio de um olhar interior. Podemos entrevê-lo nas telas presentes, nas quais se contemplam, sob uma rede de acumulações, estados de indeterminação e de deriva: um mundo de hesitações, de dúvidas e de procura de soluções. Esta antevisão de interioridade, iluminada a golpes de cor, deixa elevar, jorrando de si, para um plano de percepção, os mais secretos caminhos que percorre e que se vão subdividindo em curtas e múltiplas etapas. É nesta quase observável interioridade, neste mostrado mecanismo dum aparecimento rente aos fenómenos, quase visceral, que reside a certeza sensível da obra de Palolo: estádios e redes e sucessivas camadas de colorações que se deixam distinguir e que nos oferecem o que resta – a partilha de um mais vivo interior elevado sob os traços e os sinais da diferença ou da indiferença? Entre um estado finito e uma perseverança que buscam a sua energia num "ser" infinito e se orientam e se representam enquanto identidade presentificada. Neste fazer derivado, em primeiro lugar, de uma interioridade que se deixa transluzir. A riqueza cromática desta certeza sensível (que nos seus desenhos se vai identificando para além da contenção de um ainda visível e declarado traço de lápis) segue modalidades de saber e apropria-se da singularidade de visadas barras de cor. O singular adequa-se a um inicial múltiplo, marcadamente diverso; exclui (quase) o que lhe é próprio, para nos iniciar de uma forma unitária e estimulante nas propriedades de uma clara objectividade visual. Na certeza sensível de um estabelecido espaço que é, à vez, geometria, cor e tomado órgão de apropriação: o perceber é a consciência mínima da sua forma e da sua modalidade. Tudo se organiza como se no seu íntimo residissem coisas tão diversas, objectos tão carregados de drama como o mumificado cadáver de um homem conservado no gelo ou a melancólica paisagem de um fim de dia holandês captado pelos pincéis de Hobbema ou Ruydael. São coisas de representação que chegam até nós carregados de descoberta, de resistência, de múltiplos géneros, de coragem e de medida e de uma toda poderosa aparência. E o que é aparente cobre-se e rodeia-se de (uma) natureza, de um caos e de uma oposta ordem plenas de ideia de "sublime" dinamicidade. O visível – a própria geometrização e abstractização do visível - , traz sempre consigo (quer seja Barnett Newman, Ellsworth Kelly, Matisse, Mondrian ou Léger), a devastação e a ameaça de uma forma à qual, por distinção, se pertence. Também a mais iluminada geometria, a mais investida figura da linearidade se deixa reconstituir pela configuração de um olhar e pelo enunciado cognitivo de um rosto; pela sua (própria) representação, pela sua certeza sensível. É assim em Palolo: a arte vai sempre além da imaginada intensificação de uma crise. E torcidos, distanciados. Mas elementos de uma subversão de planos, de intenções frásicas, de esquemas comportamentais, de propósitos emotivos: tudo nesta pintura se inscreve na aparente categoria do erro – do erro, da errância e dos seus domínios – formas, sempre, de uma certeza sensível. De uma certeza inumeradamente superior. Frank Stella, Donald Judd, Peter Halley, Flavin, Carl Andre, Noland: a representação leva-nos a um campo de correlações íntimas, de aparência espontânea e de complexidade impulsiva. Também em Palolo esses dados estão lançados e são indicadores de mudança e de domínio técnico: apreende-se e reflecte-se a diferença de um mundo que é expresso na indiferença desse mesmo mundo. E tudo nos remete para uma exaltação do sensível e para a definição de uma medida, escala, superfície, cruzar de universos de superfícies, composição, cor. Trata-se de um artista que pertence à tribo errante dos maiores.

Ao olharmos estas telas e este conjunto de desenhos, estes "Sem título" que nos chegam datados de 1992 e de 1993, aproximamo-nos de uma "relativa" realidade que, como o demonstra Nelson Goodman, abrem a uma "proliferação de mundos" e "não querem denotar coisa alguma". "Não figuram" a organização de um sistema global assente na "verdade, toda a verdade, nada mais do que a verdade", isso que guarda consigo "uma regra perversa e paralisante para um construtor do mundo" (Ways of Worldmaking, 1978). Essa vastidão de banalidades – o que nos cerca – parece-nos ironicamente negada, na sua impossibilidade, por essa múmia de homem conservada no gelo dos Alpes ou dos Himalaias. A qual parece olhar-nos do mais fundo destas arquitectadas listas coloridas; e erguer um braço, atravessando milénios, carregada de ordem, repouso e movimento; mas ela somente nos indica a correcção inovadora do seu contrário. Nada nos diz, de facto, a versão correcta da sua (verdadeira) não figuração. Esse homem de gelo fala e um "surdo pode ver a palavra sobre os seus lábios", como tão bem sublinha Gérard Genette com L'Oeuvre de l'art (1994). Os escorridos de um intenso vermelho de um dos seus acrílicos sobre papel experimentam, eles próprios, o aparecer de um fenómeno que significa cindir e tornar-se um outro na sua (própria) identidade. A história desse desenho toma na sua imediatez de cor o encontro e a recondução com um "espírito", ao mesmo tempo finito e infinito, diverso e indiferente. Experimentar é conduzir esta (quase) certeza sensível; conduzi-la a um absoluto que, não deixando de ser um arqui-modo imperfeito, é a possibilidade de fundamentar uma determinação: a do rigor da queda; a da invenção de um entendimento.

João Miguel Fernandes Jorge

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