A pintura de Filipe Rocha da Silva dificilmente se vê em directo, ou seja num único acto de ver. E, logo aí, começa a estranheza que tem, porque nela há sempre representação das coisas visíveis: figuras, paisagens, céus, arquitecturas, objectos e mesmo a luz e a sombra que são os arquétipos da visibilidade. Não me parece porém que tal estranheza, nele, seja um móbil, ou por outras palavras, uma façanha, como hoje ocorre tanto com a pintura falida. Passou por Florença e Nova Iorque, sítios onde a pintura se fez, se faz, se pensa e se dispensa, mas tão pouco será esse novo, como moda, que ele exerce pintando. Pelo contrário, outro dos reconhecimentos da sentida estranheza é precisamente uma certa retenção do novo, quero eu dizer do novo que há. Nisto, contudo, não recusa Filipe Rocha da Silva o que lhe apetece daqueles míticos lugares e que, resumindo, julgo ser: a escolha e seu prazer, a densidade e o seu ritmo opressivo.
Por escolha, vem ao de cima, o que da Itália lhe terá ficado das categorias da pintura, dos seus estilos, regras e de estrutura intemporal da visão; por densidade, o espaço contemporâneo, espaço sobreposto ao espaço, da memória estética, o numerário do humano como imagem de humanismo, a objectualidade moderna, a máscara como utensílio. E talvez, ainda, o ser, a ansiedade do ser, a rudeza e a ironia da representação. O Novo Mundo estaria assim para o Velho Mundo numa relação dialética, ao que parece, ainda possível. Creio que o pintor possui de tal fatalidade esclarecida consciência e uma sensibilidade desperta que se move com humor temperado entre estes dois poderes. O velho e o novo não se negam ao seu assalto pirata, senão blasfemo, e a paleta breve desliza, entre cortinas, sobre tectos de catedral e palácios, bandeiras e lagos monetianos de nenúfares, nus de placard ou danaides recentes aguardando, reclinadas, a moeda de Júpiter.
Nada é evidente, porém, e falando de cortinas (como quem fala de planos) elas correm sobre a tela como velaturas praticáveis. Várias em cada quadro, à maneira pontilhista, quer esmaecendo, quer precisando a visão do que lá está segundo as distâncias do ver, isto é, pontuando a indiscrição que se comete, vendo. Só que este pontilhismo, este matiz descritivo, se bem que sinal, não é, identificado de perto, apenas um sinal, um ponto ou como que "hachure" impressionista. É uma figura, uma ficção minúscula, completa em gestos, formigando aflita no espaço, desamparada. Sobrepostas, tais figuras marchantes tantas quantas necessárias e manualmente possíveis de fazer em cores, formam as variantes da textura profunda, são leito, corpo e trama de outras ficções maiores e mais centrais e visíveis que ordenam a cena e nomeiam o quadro.
Estamos, portanto, em pleno e à mercê de uma engenhosa armadilha. E é bem assim, porque todos os processos dirigidos principalmente à percepção carecem de engenho e todos são sempre armadilhados. Que nos lembremos do maneirismo e logo, ainda, do barroco e atentemos no que faz com a arte clássica Filipe Rocha da Silva para ir ao encontro de ambos. Esta também uma das razões ou circunstâncias pelas quais o seu "novo" se não conforma com as esquadrias minimalistas (que mesmo assim conhece), com os esgares escorrendo do próprio desalinho (passou entretanto em fases anteriores suficientemente pela convicção miserabilista), ou pela tentação abstracta (que espreita amiúde), e parece antes estar a pintura a procurar-se em algo não propriamente citado, mas que de algum modo se sabe, se conhece.
Aliás as problemáticas da percepção trazem novidade sem trazerem o novo. Elas próprias é que são em si mesmas o elemento novo, a surpresa. É por isso que julgo ser mais importante o desalinhamento que tem Filipe Rocha da Silva que o alinhamento que poderia facilmente ter. É em termos de problemática da visualidade que a sua pintura se efabula, é aí que deve ser procurado o imprevisto, o impacto e a actualidade. A pesquisa é-lhe tão importante ou mais que o dom, e a ironia ou desconfiança que o artista revela face aos seus modelos quer culturais, quer físicos, não arrastam consigo propriamente uma definitiva ruptura.
Há sim uma previsão de catástrofe, brechas avisadoras por toda a parte do espaço, mas o edifício mantém-se miraculosamente de pé, emotiva e saudosamente de pé. Há, nesta pintura de Filipe Rocha da Silva, muito da despedida de um mundo e o esforço premonitório de arrumar nele (no que fica? No que se transforma?) uma humanidade perdida no seu próprio jogo de povo, ignorante do futuro, ignorante dos seus passos cegos, caminhando inexoravelmente, por entre fendas, para servir de pele e pigmento à sua imagem matizadamente transposta. Como bom maneirista que afinal é, a conceptualidade e o ser moral interessam-lhe tanto quanto o resto. E o resto, mais o que transporta desse conceptualismo humanista, respeita à pintura, à pintura que vale, à que se dirige valorosamente aos enigmas, sempre os mesmos e sempre renovados da percepção.
Fernando de Azevedo, Novembro 1990