"É a polifonia que se vai lançar da base cantante da noite.
Se o homem existe, é porque o universo o suscita, assim como suscita tudo o que existe para ele mesmo existir. Por isso, tanto um como outro são indispensáveis; ou seja, não podem ser pensados separadamente.
As estrelas entre si têm diferentes intensidades de luz. Em primeiro lugar é difícil de representar-se o corpo que elas compõem. E para mim é uma necessidade vital conhecer a autonomia desse corpo e de o construir à minha volta. Para o habitar. Pois que, habito tudo o que está ao alcance dos meus sentidos (habito mesmo, e esse é o ponto onde começo a fundir-me, tudo o que está ao alcance da minha inteligência). A visão do céu faz-me sempre as suas proposições.
O corpo que as estrelas compõem contêm-me. Rodeia-me, dele faço parte.
Não se pode conceber nada tão pequeno que possa estar separado do universo. Não se pode conceber nada tão grande que dele possa estar separado.
Esta via láctea que contém as nossas cidades, as nossas fábricas, os nossos pequenos empregados bancários, contém sessenta e cinco biliões de sóis, quero dizer, que contando um sol por segundo, seriam precisos seis mil anos, dia e noite sem parar, para os contar.
Furacão imóbil de biliões de sóis suspensos no tempo.
A via láctea resume-se a estrelas. A distância que nos separa desse amontoado de estrelas anula a distância entre elas, e nos abismos que iluminam com a sua mistura de luz, elas traçam diante dos meus olhos como que um ribeiro de uma bruma de leite. Entro no primeiro grande corpo nebuloso do céu. A explicação é-me enfim dada com palavras imensas que não posso conter, mas o meu coração, como um pequeno animal quente instintivamente enrola-se nessa espiral de primavera.
O passado, o presente, o futuro, esmagados por esta lama de fogo, são a lama de fogo.
A noite está agora contra mim com todas as suas constelações, é preciso abreviá-las e abreviar ainda o seu resumo. É preciso reduzi-las até serem pontos sem dimensão. Então, serão legíveis e visíveis, mas tornaram-se semelhantes a nós próprios: o universo, e eles contêm-no, mas tão logicamente sujeito à sua estatura que continuará infinitamente na sua matéria o inapreensível infinito.
Vejo o espaço e o tempo que este universo incha. Vejo-o interiormente a mim mesmo.
Nós estamos no abismos que a existência do sol escava no espaço.
É a consciência interior da minha participação neste abismo que bruscamente o escava à minha volta com toda a sua verdade. A verdade que me é acessível. As medidas não acrescentam nada. Nunca falarão.
Só o universo exprime o universo.
A luz é imóbil. Os cento e quarenta milhões de anos que ela gasta para atravessar, até mim, o espaço dos amontoados nebulares da coroa boreal, bem percebo que à volta deste abismo hajam biliões de abismos, e que a luz ficará embaraçada com tantos zeros de biliões e biliões de anos, que, enfim terei autoridade para dizer que ela está perfeitamente imóbil tanto lá adiante como aqui. Assim, este ensinamento que está lá adiante no universo, também está igualmente aqui onde moro, ao meu alcance. E esta verdade está em mim como todas as verdades universais estão em mim.
Por mais que me diga que a luz se move a trezentos mil quilómetros por segundo, não tem nenhum significado.
Sobre a terra onde habito, a luz era a imobilidade, tanto a sua velocidade instantânea a apertava sobre si mesma.
Já então, esta verdade me ilumina: as minhas medidas não têm nenhuma realidade. Não as posso aplicar ao universo.
Antares é cem milhões de vezes maior que o sol. Ela fica por ser um ponto sem dimensão da constelação do Escorpião; quando ela está amplamente estendida sobre o horizonte da terra, ocupando todo o espaço do largo palco diante de mim, coberto de amendoeiras em flor, Antares é um ponto vermelho. Uma flor de amendoeira exausta e enervada pelo vento, esconde-o.
O presente da luz, que me vem do centro do meu sistema, é um passado velho de trinta mil anos.
O meu objectivo futuro é este extraordinário amontoamento de microrganismos e de raios cósmicos no qual me arrasta o remoinho da via láctea, aproximando-me de mundos que me irrigam (riqueza do meu coração, coloração da minha alegria, raízes dos meus sentidos profundamente agarrados à volta das estrelas como a raiz das árvores sobre suculentos torrões de terra) afastando-me de mundos que carregavam o meu sangue de uma particular compreensão do universo, de uma particular utilização do seu paladar e, nestas extraordinárias distâncias, bruscamente expludo e apago-me ao mesmo tempo, sem nenhuma duração, utilizando em relâmpagos traços imponderáveis.
O sentimento da nossa absoluta segurança cósmica apenas existe devido à nossa duração efémera.
O universo é só vivo. Chamamos morte o momento em que a matéria que nos compõe entra numa série de transformações, e essas transformações já não podem mais comover o nosso espírito. A nossa concepção da morte é a prova da nossa sujeição absoluta. Esta concepção está exactamente adaptada ao nosso egocentrismo. Ela não se poderá acordar com nada que não seja o que consideramos como a nossa identidade impermeável. A palavra morte é puramente subjectiva. Não poderá nunca ser empregue num sentido objectivo: o que ela designa não existe no universo. Uma célula, um átomo não morrem: transformam-se. O encadeamento destas transformações, o espaço e o tempo que ele cria são o universo.
O verbo criar não tem passado nem futuro no universo: essencialmente é presente.Não há nenhum primeiro nem sétimo dia, há o preciso instante da criação e é o tempo espacial.
O tempo sobre o qual se exerce a memória total da humanidade não conta para o universo; ele serve-se do tempo espacial.
Aí não pode haver passado, ou seja, não pode haver formas sem tempo; aí não pode haver futuro, ou seja, haver tempo sem formas. A vida inteira vive no tempo das formas; é uma vida absoluta num presente absoluto.
A quatro quilómetros de altitude, o céu é azul-mar. A oito quilómetros é violeta sombrio. A dez quilómetros, o céu é negro e poeirento como um desmoronamento de fuligem. A vinte quilómetros de altura, o céu é mais negro que o céu da noite mais negra apesar do esplendor do sol, e apesar do sol, grossas estrelas verdes rasgam-no. A cinquenta quilómetros de altura, o céu é apenas um tecto; é o interior de um oceano de trevas. O enorme sol não esconde nada. Ele é um globo de labaredas exactamente cercado pela noite eterna. Dez mil quilómetros: o globo terrestre afundado na noite até ao meio, flutua, rola, fazendo de um lado crepitar auroras e do outro ferver a noite eterna.
A luz descobre a minha íntima mistura com o universo. Já não tenho necessidade de fazer fugir os deuses; instalo-me a meio deles.
Aqui a luz já não posa sobra nada: ela é. Elemento do mundo, ela existe em si, ela compõe a noite eterna. A noite, agora igual como um som profundo...
Mas, agora que tentei medir e depois de ter escolhido a imobilidade como unidade de medida, estou em presença de dimensões que ultrapassando todas as minhas dimensões espirituais, reduzem a minha escala total à minha única matéria. A minha própria imensidão não está para lá da minha vida: ela é a minha vida.
O universo não está separado em duas partes: nós de um lado e do outro lado o resto, nós somos o universo e a sua paixão é a nossa paixão.
Não há nada no universo que possa ser outra coisa que o universo.
Constato que não sou escravo do universo, que participo em todas as suas liberdades. O universo não me esconde nenhuma verdade. Todas estão em mim e diante de mim. E, com efeito, é preciso que assim seja, pois que, não posso viver falsamente num mundo real. Possuo mesmo tão completamente estas verdades que lhes obedeço maquinalmente, como obedeço maquinalmente à contracção do meu coração (um acto que precisamente é uma verdade universal).
O Céu pesa igualmente sobre todos os homens."
JEAN GIONO — O Peso do Céu (extractos)
Manosque 1938
«C'est la polyphonie qui va s'élancer de la base chantante de la nuit.
Si l'homme existe, c'est que l'univers le suscite, tout ce qui existe pour exister lui-même. C'est pourquoi l'un et l'autre sont indispensables; c'est-à-dire ne peuvent pas être pensés séparément.
Les étoiles ont des intensités de lumière différentes les unes des autres. Il est d'abord difficile de se représenter le corps qu'elles composent. Et c'est pour moi un besoin vital de connaître l'anatomie de ce corps et de le construire autour de moi pour l'habiter. Car j'habite tout ce qui est à la portée de mes sens, et c'est le point où je commence à me fondre, j'habite tout ce qui est à la portée de mon intelligence. La vision du ciel me fait toujours ces propositions.
Le corps que composent les étoiles me contient. Il m'entoure, j'en fais partie.
On ne peut rien concevoir de si petit qui puisse être séparé de l'univers. On ne peut rien concevoir de si grand qui puisse en être séparé.
Cette voie lactée qui contient nos villes, nos usines, nos petits employés de banque contient cent soixante cinq milliards de soleils, c'est à dire qu'en comptant un soleil par seconde, il faudrait six mille ans, jour et nuit sans arrêt, pour les compter.
Ouragan immobile de milliards de soleils suspendus dans le temps.
La voie lactée se résout en étoiles. La distance qui nous sépare de ces étoiles amassées abolit les distances entre elles, et dans les gouffres qu'elles illuminent de leur lumière mélangée, elles tracent devant mes yeux comme le ruisseau d'une brume de lait. J'entre dans le premier grand corps nébuleux du ciel. L'explication m'est enfin donnée avec des mots immenses que je ne peux contenir, mais mon cœur, comme une petite bête chaude, s'enroule instinctivement dans cette espiral de printemps.
Le passé, le présent, le futur, écrasés par cette boue de feu, sont de la boue de feu.
La nuit est maintenant contre moi avec toutes ses constellations, il faut les abréger encore leur abrégé et abrégé Il faut les réduire jusqu'à des points sans dimensions. Alors, ils sont lisibles et visibles, mais il sont devenus semblables à nous mêmes: l'univers, ils le contiennent, mais si logiquement assujetti à leur taille qu'il continue à l'infini dans leur matière l'insaisissable infini.
Je vois l'espace et le temps que cet univers gonfle. Je le vois intérieurement à moi-même.
Nous sommes dans le gouffre que l'existence du soleil creuse dans l'espace.
C'est la conscience intérieure de ma participation à ce gouffre qui le creuse brusquement autour de moi dans toute sa vérité. La vérité qui m'est accessible. Les mesures n'ajouteront rien. Elles ne parleront jamais.
L'univers seul exprime l'univers.
La lumière est immobile. Les cent quarante millions d'années qu'elle met pour traverser jusqu'à moi l'espace des amas nébulaires de la couronne boréale, je comprends bien qu'autour de ce gouffre il y a des milliards de gouffres, et que la lumière y sera embarrassée dans tant de zéros de milliards et de milliards d'années, que je serai enfin autorisé à dire qu'elle est parfaitement immobile là-bas comme ici. Ainsi, cet enseignement qui est là-bas dans l'univers, il est ici également dans mon habitat à ma portée. Et cette vérité est en moi comme toutes les vérités universelles sont en moi.
J'ai beau me dire que la lumière fait trois cent mille kilomètres à la seconde, c'est sans aucune signification. Sur la terre que j'habite, la lumière était immobile, tant sa vitesse instantanée la serrait sur elle-même.
Déjà, cette vérité m'éclaire: mes mesures n'ont aucune réalité. Je ne peux pas les appliquer à l'univers.
Antarès est cent millions de fois plus grand que le soleil. Il reste un point sans dimension de la constellation du Scorpion; quand elle est largement étendue sur l'horizon de la terre, occupant tout l'espace du large plateau que j'ai devant moi, couvert d'amandiers fleuris, Antarès est un point rouge. Une fleur d'amandier, toute lasse et énervée de vent, le cache.
Le présent de la lumière, qui me vient du centre de mon système, est un passé vieux de trente mille ans.
Mon futur objectif est cet extraordinaire amassement de micro-organismes et de rayons cosmiques dans lequel me traîne le tournoiement de la voie lactée, m'approchant de mondes dont je suis irrigué (richesse de mon cœur, coloration de ma joie, racines de mes sens profondément accrochées autour d'étoiles comme la racine des arbres sur de savoureuses mottes de terre) m'éloignant de mondes qui chargeaient mon sang d'une particulière compréhension de l´univers, d´une particulière utilisation de son goût et, dans ces extraordinaires distances, j'éclate et je m'éteins brusquement en même temps, sans aucune durée, utilisant en éclairs des traces impondérables.
Le sentiment de notre absolue sécurité cosmique n'existe qu'en raison de notre durée éphémère.
L'univers n'est que vivant. Nous appelons mort le moment où la matière qui nous compose entre dans une série de transformations, et que ces transformations ne peuvent plus émouvoir notre esprit. Notre conception de la mort est la preuve de notre absolue sujétion. Cette conception est exactement adaptée à notre égocentrisme. Elle ne peut s'accorder à rien en dehors de ce que nous considérons comme notre entité imperméable. Le mot mort est purement subjectif. Il ne peut jamais être employé dans un sens objectif: ce qu'il désignerait n'existe pas dans l'univers. Une cellule, un atome ne meurent pas: ils se transforment… L'enchaînement de ces transformations, l'espace et le temps qu'ils créent sont l'univers.
Le verbe créer n'a ni passé ni futur dans l'univers: il est essentiellement présent.
Il n'y a ni premier ni septième jour, il y a l'instant précis de la création et c'est le temps spatial.
Le temps sur lequel s'exerce la mémoire totale de l'humanité ne compte pas pour l'univers; il se sert de temps spatial.
Il ne peut pas y avoir de passé, c'est à dire de formes sans temps; il ne peut pas y avoir de futur; c'est à dire de temps sans forme. La vie tout entière vit dans le temps des formes; c'est une vie absolue dans un présent absolu.
A quatre kilomètres d'altitude, le ciel est bleu marine. A huit kilomètres, il est violet sombre. A dix kilomètres, le ciel est noir et poussiéreux comme un écroulement de suie. A vingt kilomètres de hauteur, le ciel est plus noir que le ciel de la plus noire nuit malgré l'éclatant soleil, et malgré le soleil, de grosses étoiles vertes le déchirent. A cinquante kilomètres de hauteur, le ciel n'est plus un plafond; il est l'intérieur d'un océan de ténèbres. L'énorme soleil ne cache rien. Il est un globe de flammes exactement cerné par la nuit éternelle.
Dix mille kilomètres: le globe terrestre enfoncé à mi-flanc dans la nuit, flottant, roulant, faisant d'un côté pétiller les aurores et l'autre bouillonner la nuit éternelle.
La lumière découvre mon intime mélange avec l'univers. Je n'ai plus besoin de faire décamper les dieux, je campe au milieu d'eux-mêmes.
Ici la lumière ne se pose plus sur rien: elle est. Elément du monde, elle existe en soi, elle compose la nuit éternelle. La nuit, maintenant égale comme un son profond…
Mais, maintenant que j'ai essayé de mesurer et après avoir choisi l'immobilité pour unité de mesure, je suis en présence de dimensions qui, dépassant toutes mes dimensions spirituelles, réduisent mon échelle totale à ma seule matière.
Ma propre immensité n'est pas au-delà de ma vie: elle est ma vie.
L'univers n'est pas séparé en deux parties: nous d'un côté et de l'autre le reste; nous sommes l'univers et sa passion est notre passion.
Rien dans l'univers ne peut être autre chose que l'univers.
Je constate que je ne suis pas esclave de l'univers, que je participe à toutes ses libertés. L'univers ne me cache aucune vérité. Elles sont toutes en moi et devant moi. Et, en effet, il faut bien que ce soit ainsi car je ne peux pas vivre faussement dans un monde réel. Je possède même si complètement ces vérités que je leur obéis machinalement, comme j'obéis machinalement à la contraction de mon cœur (un acte qui est précisément une vérité universelle).
Le ciel pèse également sur tous les hommes.»
JEAN GIONO — Le Poids du Ciel (extraits)
Manosque 1938