José Agostinho Baptista
Autoretrato

19.

Franqueei as áleas, a passagem entre os caules.
Que nome darão a estes bosques, à clareira súbita
se me atrevo?

Um relance de cedros, plátanos, um cântico que sobe
do cais —

é de alguém que parte, este murmúrio;
é uma vertigem de pedra isto que fere o ar, uma
ruga o que embranquece as águas.

Flores do mar,
flores da mágoa, regressai às florestas de sal.

Sois como um perfume dorido, algo que se arranca aos
campos,
as corolas que entardecem na alma, nos seus jardins.

Vagueio pelo porto e pela encosta,
enlouqueço pelas alamedas, procuro os degraus onde
começa o lodo,
demoro-me —

como dizer-te, ó viajante, as horas de quem fica,
dedos nos dedos,
lábios nos lábios,
laços em que me desfaço?

Cedros, plátanos, áleas que irrompem, arcos que nos
retornam à saudade,
heras em que me enredo,
uma única noite que aplacasse a ausência,
uma única noite de clara alegria,
uma única morte —

talvez.

José Agostinho Baptista (Autoretrato, 1986, Assírio & Alvim)

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