Dizia Plinio que os Gregos começaram por delimitar, com um traço, o contorno da sombra humana projectada — e que esse foi o primeiro método da sua pintura. Seria, ou não — a verdade é que Lourdes Castro, que nunca leu o citado autor, faz exactamente o mesmo, nisso inventando.
As coisas são o que são, mas sombras também: suas próprias e iludidas ausências. Nas sombras que projectam vai, ao mesmo tempo, a sua verdade e a sua falsidade. Delineá-las com um traço sinuoso e hábil, como faz Lourdes Castro, significa marcar tal verdade e tal mentira, isto é a realidade dupla que a coisa encerra. E como a sombra não fica aprisionada (não se trata de jogo de silhuetas), a realidade mantém-se livre, como deve ser.
O desenho dos contornos da sombra recorda o objecto e diz que ele já lá não está: é sua memória e sua negação. Entre uma e outra, Lourdes Castro fala de ausência propondo uma ligação extremamente inquietante. A ausência da coisa funciona fantomaticamente — e o seu registo é atitude irónica de não crer como se cresse. Ser gente a coisa desaparecida, acrescenta o poder sugestivo da operação e põe-na no plano em que ela tem de ser moralmente significante.
Num tempo em que a pintura (e o romance, e o cinema) conta "não-histórias", Lourdes Castro oferece-nos "não-personagens". Pode parecer simples de mais — mas torna-se indispensável fazê-lo. E inevitável. Aí a importância da sua pintura actual que (sem dela ter recebido influência) deve ser emparelhada com a escultura americana dum George Segal, moldagens de ausência também.
Mas há quem não tenha sombra, como sabia Chamisso — e citação com citação se apaga.Exposições em:
Galeria Divulgação, Lisboa 1964 (com René Bèrtholo)
Galerie Buchholz, Munique, 1965
Galerie Kunsthalle, Baden-Baden, 1966
José-Augusto França