Maria Helena de Freitas

O Duplo do Mundo

Desenvolvendo uma linha de trabalho pessoal no movimento conhecido em França por Novo-Realismo, Lourdes Castro aproxima-se da realidade em torno das suas possibilidades de percepção.

A artista começa por escolher alguns objectos utilitários, descontextualizados e absurdos — um canivete suíço sobre uma placa de madeira, um cabide a sustentar um mostruário de pequenos botões e contas de colares, ou a composição de uma hélice, junto com os carris de um combóio eléctrico e o suporte de uma lâmpada. Uniformemente cobertos com uma tinta de alumínio, estes objectos desmunidos das suas funções, perdem em realidade o que adquirem em artifício.

Este processo evolui segundo uma lógica cumulativa. Lourdes Castro vai recolher em caixas, cestos ou gavetas, todos os objectos excedentários do seu quotidiano1. Acumulados sem lógica aparente, semi-ocultos, ou dispostos segundo uma esquadria ordenada, encontramos garrafas, abre-latas, lâmpadas, lápis, conchas, sapatilhas, carrinhos de linhas, caixas dentro de caixas, bonecas mutiladas (...), numa massa confusa de formas, unidas por uma cor metálica e lunar. Noutros casos, o método é inverso. A artista não cobre de tinta as superfícies mas obtém o mesmo efeito seleccionando as peças em função da sua unidade visual, construindo composições cujo sentido imaginário é exclusivamente atribuído pela cor — o verde, o azul, o dourado. Nestes trabalhos a acumulação não transporta um efeito de saturação. Não se trata de devolver um mundo excessivo de imagens (como alguns artistas da Pop Art) mas pelo contrário de subtrair estes objectos à realidade, concedendo-lhes uma dimensão artificial. A uniformidade cromática funciona como uma máscara. Os objectos sem rosto, acumulados e dissimulados, com os sentidos próprios à deriva, tornam-se indistintos e indiferenciados uns dos outros. A realidade apresenta-se desfigurada.

É nestes trabalhos (1961/1963) que se podem encontrar os primeiros indícios do seu fascínio pela invisibilidade. Embora pareça paradoxal é com este recenseamento de objectos que Lourdes Castro inicia os seus jogos de presença-ausência. Prosseguindo uma pesquisa de grande coerência formal, apropria-se sempre da realidade para lhe questionar as aparências.

Partindo destas assemblages, e querendo realizar em simultâneo obras impressas a artista coloca directamente os objectos sobre a seda pré-sensibilizada. É assim que obtém em serigrafia as suas primeiras sombras projectadas (1962). A partir daí, a sua actividade desenvolve-se como num processo de revelação — "uma sombra tem para mim mais significado do que simplesmente o objecto descrito. É uma maneira de contemplar as coisas e as pessoas à minha volta"2.

Experimentando todas as possibilidades físicas de representação das sombras, Lourdes Castro irá transformar esta pesquisa plástica numa forma de atenção ao mundo. Uma atenção absoluta como um estado de encantamento que a levará a registar e sistematizar as suas imagens como um álbum de negativos; "Álbum de Família" é assim que a autora denomina os numerosos volumes que tem preenchido com tudo o que pode recolher relativo às sombras, frases de poetas, páginas de livros, fenómenos físicos, reproduções, fotografias, pensamentos.

Para a artista a sombra não comporta sinais de obscuridade, mas de luz. A sua função é revelar um contorno e a clarividência que esse traço representa para o seu olhar. Trata-se sempre do contorno de sombras e não de corpos. Para além do objecto, o que se valoriza é a sua relação com o mundo — a luz, a atmosfera, a hora, os sinais subjectivos. É a sombra que define a situação de um corpo entre o céu e a terra ("Quem não tem sombra que não ande ao sol") 3, um corpo sem sombra perde a sua relação com o mundo, como ensina "A História Maravilhosa de Peter Schlemihl". 4 Dando réplica a este conto, Lourdes Castro representa a sombra como quem procura o contorno da alma. Retomando uma tradição com raízes longínquas a oriente – teatro de Sombras Chinesas – e num passado mais recente com Ingres, Otto Runge, Chirico, Man-Ray, Marcel Duchamp, entre outros, toda a produção plástica de Lourdes Castro se desenvolve em torno da possibilidade de materializar formas de ausência. É deste modo, que a artista resolve um dos problemas fundamentais da arte destes anos — as modalidades de apropriação da realidade na criação da nova imagem. Fazer notar a ausência do referente, representando o seu duplo, não deixa de ser uma forma de ironizar a história da arte figurativa. Na sequência da descoberta das sombras projectadas de objectos, em serigrafia, Lourdes Castro prossegue por dentro desta revelação, experimentando novos suportes e os materiais mais diversificados. Sombras humanas sobre tela (a óleo e a pincel) ou desenhadas nos lugares mais inesperados, como as paredes do interior de uma casa, ou ainda a simulação de recortes vazios sobre telas a lembrarem coreografias de silhuetas ou de personagens e objectos sem rosto.

A partir de 1964 (e até 1968 aproximadamente), o seu trabalho irá fixar-se num material novo — o plexiglas — dotado de uma plasticidade absoluta. Utilizando uma, duas ou mais placas deste material transparente, (por vezes fluorescente) a artista vai poder materializar as sombras e transformá-las em agentes de outras sombras. Os processos que utiliza são vários — a própria sobreposição das placas, o contraste entre transparência e opacidade, o jogo da alternância de planos e cores, os recortes vazios e a vibração do intervalo entre as placas, fundamental para a definição dos reflexos e dos contornos lumínicos. Os espaços criados deste modo são disponíveis, penetráveis e permeáveis a outros espaços, criando-se uma relação ambígua entre o interior e o exterior.

Ao explorar todas as potencialidades físicas desta matéria, a artista pode agora jogar nos efeitos de movimento e de profundidade que a própria transparência proporciona. Como se esta pudesse ser atravessada em planos sucessivos até uma exaustiva representação do seu interior. Nestes trabalhos reconhecemos as sombras de muitos dos seus amigos, nos gestos simples dos rituais de todos os dias — pentear, ler, fumar — ou dos seus objectos mais familiares. São as memórias dos corpos, que assim registadas, ganham autonomia e vitalidade.

"Depois de ter retirado as sombras da sombra, de lhes ter dado cor e transparência, uma vida independente, estendo-as"5. Sobre lençóis de algodão ou panos de linho translúcido, Lourdes Castro irá bordar os contornos de pessoas deitadas (1968/1969). Não se trata apenas do fascínio da descoberta de um novo material ou do encantamento de retomar uma tradição artesanal. É por dentro da sua pesquisa plástica que a artista vai concedendo energia a estas "formas de vida". Os contornos das sombras assim bordados nestes lençóis, confundem-se nos mesmos gestos e posturas com as pessoas que neles se deitam. É a evolução natural de uma dramaturgia que se desenvolve nos limites de uma circularidade perfeita.

A sua estadia em Berlim, entre 1972 e 1973, permitiu-lhe o aperfeiçoamento das suas experiências com o teatro de sombras, iniciadas alguns anos atrás. A partir daí, e em colaboração com Manuel Zimbro, irá dedicar-se inteiramente à concepção destes espectáculos. Transformado o seu próprio corpo em sombra Lourdes Castro torna-se a principal protagonista da sua ficção. Transportando um conhecimento adquirido, esta acção decorre num plano rigorosamente visual. Ou seja, neste caso o teatro age no domínio da plasticidade, sem representação nem narrativa. A história está implícita no movimento das sombras no espaço, com os seus gestos mínimos do quotidiano tão próximos da vida, que com ela se encontram. "Durante o espectáculo eu sou a sombra e o Manuel a luz" 6...

in catálogo: "Além da Sombra"
Centro de Arte Moderna — F.C. Gulbenkian, 1992
Maria Helena de Freitas

1)
Estes trabalhos de L. C. poderão ser aproximáveis das assemblages de Louise Nevelson – visualmente idênticos, nalguns casos, mas autónomos no contexto de produção global e no processo de intenções das artistas.
2)
Citação da autora.
3)
Adalbert von Chamisso, "A História Maravilhosa de Peter Schlemihl", Berlin, 1813.
4)
Idem.
5)
Citação da autora.
6)
Idem.

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