Pierre Cabanne

"La montreuse d'ombres"

Portuguesa, nascida na Madeira, há já muito tempo — quase desde que começou a pintar — que trocou os pincéis pela sombra; hoje, mostra as suas "assemblages-collages" de objectos pintados a alumínio (de 1961-1963), as suas primeiras sombras projectadas de objectos, os seus contornos de pessoas, inicialmente sobre tela e, depois, em plexiglas, cuja matéria transparente e translúcida encerra a existência de uma presença ausente. Os seus recentes desenhos, de traço seguro, delimitam a geografia de um corpo, de um gesto, de um objecto, de um momento desmaterializado, decantados do seu conteúdo em proveito do seu continente, colocado numa superfície plana e decomposto segundo as passagens da imagem registadas pelo olho, como uma justaposição de decalques sucessivos.

Assim, Lourdes Castro reensina-nos a ver o mundo e a nós próprios, sob a verdadeira aparência expressiva: a sombra não é a antítese da luz mas o perfil da nossa própria dupla opacidade, do nosso eu subterrâneo e obscuro. Os seus desenhos são, ao mesmo tempo, pergunta e revelação; conduzem o olhar numa sucessão de itinerários reais que se organizam em redes puramente mentais; a sombra projectada de um objecto é esse objecto desmultiplicado, explicitado e, finalmente, posto a nu. Uma espécie de "strip-tease" a partir do interior.

O seu "Grand Herbier d'Ombres", executado na Madeira, durante o Verão de 1972, é maravilhoso; ele comporta as sombras projectadas, apreendidas sob sol directo, de uma centena de plantas diferentes, com as suas etiquetas, e é admirável ter perante os nossos olhos essas sombras inundadas de luz e de seiva, em pleno crescimento, onde a poesia dos contornos se encontra com a respiração da própria vida.

Pierre Cabanne, "Le Matin", 1978

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