NOISE
ANA DA SILVA
Curadoria: Miguel Von Hafe Pérez
Porta33 — 06.12.2025 — 29.04.2026

NOISE

ANA DA SILVA


06.12.2025 - 29.04.2026
Inauguração: 6 de dezembro, sábado, 17h

/ 17h Abertura da exposição
// 18h Conversa com Ana da Silva e Miguel von Hafe Pérez e apresentação do livro Shouting Out Loud: Lives of The Raincoats (2025), de Audrey Golden

A PORTA 33 apresenta NOISE, de Ana da Silva, uma exposição que assinala o regresso da artista a casa – à Madeira – e celebra o seu contributo seminal para o pós-punk e para a experimentação contemporânea, desde os anos formativos das The Raincoats, banda que fundou em 1977 com Gina Birch.

Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a mostra reúne séries inéditas e obras recentes, cruzando pintura, desenho, arquivos pessoais, livros, vinis e objetos que evidenciam a profunda continuidade entre o imaginário visual e musical da artista.

A autora Jenn Pelly descreve o seu “estilo lírico, poético e inovador de criar ruído com a guitarra”, um impulso que também orienta a sua prática visual. Em NOISE, Ana da Silva afirma o “ruído” como força criativa: pintura, palavra, gesto, som e memória entrelaçam-se numa prática que desafia fronteiras disciplinares e revela a potência poética, irreverente e sempre surpreendente da artista.

imagens

Raincoats by Rocco, 1979

Shouting Out Loud
Lives Of The Raincoats
de Audrey Golden

ISBN: 9781399624862
Editor: ORION PUBLISHING CO
Data de Lançamento: julho de 2025
Dimensões: 243 x 166 x 30 mm
Encadernação: Capa dura
Páginas: 400

Disponível em https://wellread.pt

"A MUSICA TAMBÉM É PINTURA": ESCRITA, COMPOSIÇÃO E GESTO

Ana da Silva reconhece-se artista porque, para ela, “a música também é pintura” 1: escrita, composição e gesto. A autora Jenn Pelly descreve o seu “estilo lírico, poético e inovador de criar ruído com a guitarra”2, um impulso que também atravessa a sua prática visual, onde “pinta com ruído” e faz ressoar textura pictórica através da palavra e da guitarra.

Tal como o punk, que com asThe Raincoats ajudou a redefinir como “uma forma aberta de expressão crua e não como um som específico”2, Ana da Silva desenvolveu uma obra visual ao seu próprio ritmo. Criou ilustrações, desenhos e gravuras para capas de discos, cartazes, livros e vídeos, além de séries de pintura, como Analogue, Resonance e Noise, título que dá nome à exposição individual que agora apresenta na PORTA33.

Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a exposição NOISE atravessa disciplinas, geografias e gerações, articulando séries inéditas e trabalhos recentes com fotografias, cartazes, livros, vinis e objetos que evidenciam a continuidade entre as linguagens visuais e sonoras da artista. Entre os trabalhos em exposição, numa das pinturas da série Noise ouve-se Shouting Out Loud A Woman Alone (2024). A capa de Island — o álbum que Thurston Moore descreveu como “o melhor LP de 2018, sem qualquer competição” 3 — expressa a colaboração entre Ana da Silva e a artista de música electrónica Phew, em vibrações de azul que ondulam diálogos inesperados. Objetos de culto como a blusa “Madeira”, usada no primeiro concerto das The Raincoats em 1977 em Londres, sublinham a genealogia afirmativa e irreverente do pós-punk que a artista continua a expandir.

A exposição assinala o regresso de Ana da Silva à sua ilha, a Madeira, e a apresentação no Funchal do livro Shouting Out Loud: Lives of The Raincoats (2025)4. Nele, a autora Audrey Golden investiga o percurso da banda fundada por Ana da Silva e Gina Birch e descreve como as duas jovens mudaram as regras do jogo através de uma ética feminista, da recusa da perfeição e da experimentação vulnerável e antiautoritária. A sua influência atravessa gerações, inspirando bandas e artistas, particularmente mulheres e pessoas LGBTQIA+, como Kim Gordon, Beth Ditto, Bikini Kill e Sleater-Kinney, além de admiradores como Thurston Moore e Kurt Cobain.

A exposição NOISE insere-se na celebração dos 35 anos de programação contínua da Porta 33, iniciada em 1990, um ano após a fundação da associação cultural. Embora Ana da Silva tenha acompanhado a abertura na Rua do Quebra-Costas à distância, as suas histórias irradiam-se entre dimensões de pertença. Como descreveu Miguel von Hafe Pérez na apresentação do roteiro de arte contemporânea Ihéstico (2021), a “Porta 33 surge como “a casa” e “a domesticidade de uma comunidade de partilha de experiências, saberes e retornos sempre esperados e desejados”.5

Aos quinze anos, numa viagem com a família a Paris, Ana da Silva visitou o Louvre e deixou-se transformar pelos modos de ver impressionistas: gestos aparentemente inacabados, livres da rigidez representacional. De regresso à Madeira, que o regime do Estado Novo mantinha ainda mais ultraperiférica face às correntes culturais dos anos 60, pediu à mãe material de pintura. Esse impulso germinal tornar-se-ia indissociável da sua estética musical e visual.

No início dos anos 1990, pouco depois da abertura da PORTA33, Kurt Cobain procurou Ana da Silva na loja de antiguidades onde ela trabalhava em Londres. Admirador devoto do primeiro álbum homónimo The Raincoats (1979), então completamente esgotado, imortalizou o encontro no livreto da coletânea Incesticide (1992) 6 dos Nirvana, num relato de franqueza desarmante: confessou ter saído da loja “a sentir-me um idiota”, convencido de que teria invadido o espaço pessoal da artista, que “provavelmente achava que a minha banda era pirosa”.

Semanas depois, Cobain recebeu pelo correio um exemplar do álbum com uma capa personalizada, autografado pelos membros da banda, acompanhado de uma “carta comovente” de Ana da Silva. Nas suas palavras, esse gesto “fez-me mais feliz do que tocar para milhares de pessoas todas as noites (...). Foi uma das poucas coisas realmente importantes com que fui abençoado desde que me tornei um génio inatingível”. Tal como essa oferta inesperada, a exposição NOISE é também um gesto generoso e desarmado de partilha, uma obra aberta onde Ana da Silva permite que o seu ruído continue a gerar novas escutas e modos de ver o presente.


1. “Ana da Silva: Full Life Interview 2021”, The Women of Rock Oral History Project

2. Ana da Silva website

3. Concerto de apresentação do álbum Island (2018), The White Hotel, Salford UK;
“Island: Ana da Silva / Phew - A collaboration between the Japanese electronic artist and the Raincoats founding member lands at the natural middle of each musician's sensibilities”, Pitchfork, 2018


4. “How the Raincoats Moved Forward After the Death of Band Champion Kurt Cobain”, entrevista por Kory Grow, 2025, The Rolling Stone

“Não sabia quem era aquele rapaz com uma mulher grávida, mas [Kurt Cobain] foi à loja do meu primo à procura de um disco nosso”, entrevista por Rui Miguel Abreu, 2025, Blitz/Expresso

5. ILHÉSTICO um roteiro de arte contemporânea para a cidade do Funchal, 2021, PORTA33

6. Incesticide note, Nirvana, 1992

imagens

Raincoats. Ana da Silva por Joe Dilworth

ANA DA SILVA

Ana da Silva é membro fundadora e compositora da pioneira banda pós-punk The Raincoats. Ao longo de quatro álbuns arrojados, as Raincoats ajudaram a moldar a noção intemporal de que o punk é aquilo que cada um faz dele — um acto de expressão pura, e não um som específico. A banda tem sido uma inspiração criativa e espiritual para várias gerações de artistas, sendo citada como influência marcante por Kurt Cobain, Carrie Brownstein e Bikini Kill. Estabeleceu um precedente fundamental para o trabalho feminista no contexto punk DIY, marcado pela escrita poética de Ana e pelo seu inovador estilo de guitarra noise.

Após a interrupção das Raincoats em 1984, Ana formou a banda Roseland com Charles Hayward, dos This Heat, e colaborou com os The Go-Betweens no single Bachelor Kisses. Compôs música e trabalhou com a coreógrafa e bailarina Gaby Agis em Shouting Out Loud e Undine and the Still, apresentadas no Sadler’s Wells, Riverside Studios, ICA e Almeida Theatre, em Londres, e compôs a música para o filme Freefall do Channel 4, em 1988.

Ana regressou à escrita de canções e às actuações com as Raincoats depois de Kurt Cobain as ter convidado para acompanharem os Nirvana em digressão, pouco antes da sua morte prematura em 1994. Em 1995, lançaram o álbum Looking in the Shadows pela DGC e Rough Trade.

Em 2005, Ana lançou o seu álbum de estreia a solo, The Lighthouse — uma colecção gravada por si, composta por experiências sóbrias e elegantes de indie-pop electrónico, editada pela Chicks on Speed.

As raras aparições das Raincoats incluem uma colaboração em 2016 com Angel Olsen para o 40.º aniversário da Rough Trade; uma apresentação em 2017 no The Kitchen, Nova Iorque, intitulada The Raincoats and Friends, celebrando o livro The Raincoats da colecção 33 1/3 de Jenn Pelly; e, entre Novembro de 2019 e Fevereiro de 2020, uma série de concertos europeus excepcionais celebrando o 40.º aniversário do primeiro álbum da banda, The Raincoats. Island (2018) é o álbum colaborativo de Ana com a música electrónica japonesa Phew. Uma intensa viagem pelo noise industrial, Island está repleto de texturas envolventes, ritmos tácteis e um estilo composicional dinamicamente apurado. Ana e Phew contribuem com fragmentos pontilhistas de spoken word nas suas línguas maternas — português e japonês — reflectindo sobre isolamento, amizade e natureza. Há um sentimento de descoberta que será familiar aos admiradores das Raincoats — uma sensação de poesia e curiosidade, de intuição e invenção, de novas linguagens em formação. — Jenn Pelly Em Outubro de 2020, Ana compôs a peça sonora Abrigo, encomendada pelo festival Semibreve 2020, realizado no Mosteiro de Tibães, Braga, e criou Shelter, uma peça sonora colaborativa com Phew, encomendada pelo ISSUE Project Room, Brooklyn, EUA..

The Raincoats fizeram um espetáculo muito especial no White Cube, Bermondsey, em Fevereiro de 2023 para a abertura da exposição de Imi Knoebel, ‘Once Upon a Time’. Ana também tocou a solo no Café Oto, Londres, como convidada especial de Phew, aquando da sua residência.

Em Julho de 2025, a White Rabbit Books publicou a primeira biografia exaustiva de The Raincoats, ‘Shouting Out Loud: Lives of The Raincoats’ por Audrey Golden.

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