Exposição de Ilda David', pintura
e apresentação do livro traduzido do hebraico por José Tolentino Mendonça
I
1'Cântico dos Cânticos de Salomão?2
beije-me com os beijos da sua boca
melhores tuas carícias do que vinho 3o aroma dos teus perfumes é melhor
tua fama é odor que se derrama por isso as raparigas amam-te
4arrasta-me atrás de ti corramos fez-me entrar o rei em sua penumbra
folgaremos e alegrar-nos-emos contigo flembrar-nos-emós de teus amores mais que do vinho
com razão as raparigas amam-te.
5Enegrecida estou mas sou formosa mulheres de Jerusalém
tal as tendas de Quedar tal os panejamentos de Salomão
6não estranheis estar morena contra mim resplandeceu o sol
os filhos de minha mãe comigo se indignaram por guarda de vinhas me puseram
só a minha própria vinha não guardei
7a mim avisa-me tu amado do meu coração onde levas o rebanho
onde o recolhes ao meio-dia
não tenha de vaguear oculta atrás dos rebanhos dos teus companheiros
8se não te foi dito ó mais bela das mulheres
segue os rastros do rebanho e apascenta os teus cabritos
junto às cabanas dos pastores.
«Eu cá sou de opinião que não cabe aos juízes, ao tempo civil e ao templo civil, à República,
encorajar a poesia, esta, a poesia bachiana. Só cabe ao Deus que morreu».
HERBERTO HELDER
Há uma promessa judaica que garante: no fim dos tempos, quando assomar o Filho do Homem em toda a
sua glória, ele esclarecerá não apenas o sentido escondido das palavras da Escritura, mas também o
do espaço em branco que existe entre elas.
Talvez, porque a global apreensão de um sentido nos remeta sempre para essa escatologia, dos grandes
textos da nossa cultura, o Cântico dos Cânticos, colocando-se entre os mais obstinadamente lidos e
comentados, não deixou de ser nunca um território inapreensível, um corpo obscuro.
É verdade que explorando os fenómenos de intertextualidade se descobrem os segredos fechados das
correspondências. Mas a correspondência que significa? Relação, cortejo, dependência,
conhecimento? Ou o contrário disso? Ou outra coisa além de tudo isso?
Assim, parece-nos muito importante cruzar o Cântico dos Cânticos com as literaturas vizinhas.
Do Egipto, como recomendam numerosos exegetas desde Teodoro de Mopsuéstia. E dois documentos
ofuscam-nos com similitudes perturbantes: os textos contidos no Papiro Harris 500, publicados por
Maspero em 1883, e os «Cantos da grande alegria do coração», do Papiro Chester Beatty I, publicado,
já neste século, por Gardiner.
Tal como o Cântico, poemas dialógicos e tal como aquele articulados em torno à raíz verbal «yfh»
(ser belo), valor-chave da cultura egípcia, escasso na cultura bíblica.
Derivará, por isso, o nosso livro das canções de divertimento egípcias? Teodoro de Mopsuéstia tinha
razão quando o descrevia como encenação literária das nupcias de Salomão com uma filha do faraó?
Cruzemo-lo com a literatura mesopotâmica. Um paralelo tentador: os textos sobre Dummuzi, Enkimdu e
Inanna, textos religiosos de utilização cultual atestada, particularmente nos ritos hierogâmicos.
Será também o culto o contexto vital de origem do Cântico dos Cânticos? Em que medida a sua
dramática da sexualidade não depende da mentalidade hierogâmica?
Temos ainda o folclore siro-palestinense. Em 1873, o cônsul alemão em Damasco, J.G. Wetzstein,
publica um ritual de matrimónio que ali encontrou, cuja acção decorria em sete dias festivos. O
núcleo central era constituído pela coroação dos esposos à semelhança de uma coroação real e
sublinhado por cantos vários, exaltando a beleza física dos amantes e os ideais guerreiros do grupo.
No Cântico poderemos recolher o testemunho de um uso comum, ligado ao ciclo das festividades
esponsais, de sociedades agrárias, tribais e guerreiras?
O Cântico dos Cânticos é um momento de uma composição. Uma ária de beleza sufocante, primitiva, um desenho de labaredas, é certo. Mas que precisa dos seus antecedentes, de tudo o que depois se escreveu para apreciarmos a altura do seu lume. O 'Biblos' (livro) requer, então, o horizonte da Bíblia' (livros) onde está colocado. Mas modo?
A maneira tipicamente judaica de se interrogar sobre o carácter sagrado de um texto era: 'esse texto suja ou não as mãos, torna-as ou não indevidas para o quotidiano, o trivial?'. Levinas tem uma lição talmúdica admirável sobre essa impureza' que as Escrituras Santas exalam.
Na assembleia rabínica de Yabné, reunida no final do séc. I, declarou-se a natureza sagrada, canónica do Cântico dos Cânticos: «Pessoa alguma em Israel jamais conteste que o Cântico torna sujas as mãos». E, tanto entre os judeus como entre os cristãos (que o conheciam e utilizavam em tradução grega, a chamada Septuaginta), salvo pontuais problematizações, isso foi indiscutivelmente observado.
A dificuldade residiu no desequilíbrio instaurado por uma espécie de totalitarismo alegórico das interpretações. Sacrificava-se, com muita facilidade, o sentido primeiro, literal (ou natural, como lhe chama Anne-Marie Pelletier, no seu indispensável estudo Lectures du Cantique des Cantiques, Ed. Pont. Istituto Biblico, 1989, p. 13) em nome de um simbolismo moralizante. E mesmo assim, o que é espantoso, não deixava de ser um texto suspeito. Por essa razão um dos confessores de Teresa de Ávila ordenou-lhe que destruísse os 'Pensamentos sobre o Cântico dos Cânticos' que a carmelita havia escrito, pois parecia-lhe mal que uma mulher se ocupasse de tal objecto para meditação.
Só muito tarde se permitiu considerá-lo naquilo que ele é: epitalâmio, canto de admiração e de amor trocado por uma mulher e por um homem, sussurro de amantes. Mapa instável, sempre a ser refeito, cartografia de um grande amor desencontrado, da solidão que os amores muito grandes proporcionam, do assalto violento ou, afinal, ténue ou do assombro ténue e, depois, e logo depois, turbulento, terrífico do amor. Só muito tarde se leu a noite e o desejo, o corpo nomeado, perseguido, suplicado, o jardim entreaberto, a prece atendida.
É este o sentido natural do Cântico dos Cânticos. E, porque não se teme enunciar o sentido das palavras, é que nos podemos abrir à revelação escatológica do silêncio guardado entre elas. O silêncio de Deus.*
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
*O texto original hebraico, sobre o qual trabalhámos e que acompanha a tradução, é o fixado na 3.a edição da Biblia Hebraica Stuttgartensia, de 1987.
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