IMAGENS BORBULHANTES
A exposição de Pedro Proença, intitulada "Moita Carrasco", divide-se em duas partes. No Salão do
Teatro Municipal o artista colocou, nos vãos criados pelas molduras da decoração oitocentista do
espaço, faixas com os desenhos a preto sobre fundo branco, que têm constituído a sua obra mais
frequentemente exposta. Numa factura que imita formalmente a gravura, desenvolve composições
verticais onde as figuras (com filiação óbvia no desenho satírico, na banda desenhada, na caricatura
e, até, no desenho científico) se associam segundo processos semelhantes aos da formação das
palavras. Jogos de palavras, justaposições, associações, algo de semelhante às onomatopeias criam
imagens que poderiam ser alegorias se não desconhecêssemos aquilo que é simbolizado. "Aparências
Alegóricas", assim lhes chama Pedro Proença, retomando uma expressão inventada por Duchamp para
caracterizar um desenho preparatório para "La mariée mise à nu par ses célibataires même". Ao mesmo
tempo, apropria-se da narratividade subjacente à própria definição de alegoria: "Toda a arte
portuguesa dialoga com a narração".
A estas obras, que dialogam insistentemente com os arabescos pintados no tecto da sala do teatro,
chama o pintor "a minha produção ortodoxa". Mas, acrescenta, "nunca deixei, ao mesmo tempo de fazer
outras coisas onde trato de outros assuntos". E são essas "outras coisas" que mostra nos dois andares da galeria Porta 33. Em baixo, há uma série de pinturas de pequeno formato, a acrílico
industrial, realizadas segundo um processo que convoca a interactividade entre o fundo e a génese
das figuras. Depois de feitos os fundos, surgem formas geometrizantes que vão funcionar como
suporte: bandeiras, pendões, folhas de papel, e outras sem referente identificável. Nestas,
inscrevem- se então as figuras, que podem ou não organizar-se em cenas, e, sempre, uma inscrição,
cuja relação com os personagens é estabelecida segundo uma ordem que tem a ver com a poesia. A
legenda, a explicação, estão assim definitivamente postas de parte; a alusão, o comentário, o jogo
de ideias pela via do jogo de palavras o "non sense" sobrelevam. No piso superior, onde só mostra
pequenas guaches sobre papel (todas de grande qualidade), as referências mais directamente
literárias desaparecem, e dão lugar à associação puramente visual de diversas imagens dentro de um
círculo.
Luísa Soares de Oliveira
Público, ed. 04-12-1995
PEDRO PROENÇA
Nasceu em 1962, Lubango, Angola, vive e trabalha em Lisboa. Desde muito cedo que se
interessou por desenho, frequentou o curso de Artes da Sociedade Nacional de Belas Artes e a
Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.
Em 1982 fundou o Movimento Homeostético em conjunto com os artistas Fernando Brito, Ivo,
Pedro Portugal, Manuel João Vieira e Xana. Expõe com regularidade desde 1981 e a sua
primeira exposição individual realizou-se em1984. Desde então expôs tanto em Portugal como
no estrangeiro com regularidade. Esteve também presente no Aperto da Bienal de Veneza em
1988.
Para além da Pintura, o artista dedicou-se à ilustração, publicação de livros de poesia,
ficção, ensaios, entre outros da sua autoria.
Vive e trabalha em Lisboa.