A extensão do céu próximo não é invisível, mas a humanidade do séc. XX tem tendência em fazê-la desaparecer, em tapá-la, em isolá-la no recuo longínquo das galáxias inacessíveis. O empobrecimento do céu sem estrelas vai de mãos dadas com o aumento do valor comercial do Sol.
O desfile das Constelações nocturnas que obrigava os Antigos à contemplação da nossa imersão no seio do tropel das estrelas e que nos contava no número da manifestação, é-nos encoberto pela redução prática da nossa posição espacial na contagem dum tempo humano de quartzo onde a mobilidade do ponteiro dos segundos apenas alegra o espaço local, mas falta fazer-nos ressentir a nossa posição específica de pertença ao espaço ou ao tempo do nosso ambiente celeste natural. A vinda ao mundo da humanidade, por muito breve que seja, procede do conjunto da manifestação, e torna-a por este facto interdependente do seu ambiente estrelado. Solidão impensável da noite sem estrelas. Não haverá um perigo em se fazer ocultar as estrelas, como quem se encobre a face para não ver, para ignorar o que nos olha. Derrubamento da aporia da Leibnitz, porquê um mundo em vez de nada em porquê nada em vez de um mundo. Se o essencial do conteúdo do projecto diurno levado pela corrente actual da individuação dos seres parece guardado no segredo dos limbos, não estamos nós já a ver a metamorfose criada pelo colectivo desde os últimos clarões vesperais, cada noite transformada para o olho do nosso planeta em mega-boîte nocturna onde a humanidade nascente, isolada e auto-assombrada pela super-produção de Luminárias eléctricas, já não reconhece como realidade senão as próprias produções do seu espírito como o havia anunciado Borges. Suprimir o visível do céu não consistirá em acordar positivamente o seu esquecimento, em engendrar a indiferença e o sono vazio dos neurónios apagados. O planeta azul de dia refere-se ao único Sol. O medo do escuro criou uma ancestral observação do céu de noite, e a consciência das estrelas é uma metáfora do saber dos Antigos. A denegação das referências estreladas, parece ligar a contestação da profundidade do céu à profundidade da história. O céu físico é anterior ao seu conceito matemático, é uma aquisição da longa mentalidade colectiva de gerações de devaneios nocturnos. De noite, sobre o seu planeta eléctrico o humano técnico corre o perigo de perder o Norte. A consciência do céu não pode passar sem a ostentação do seu aparatoso manto estrelado. É esta aparência estrelada cuja proximidade nós queremos restituir. O elogio da noite.
Geneviève Morgan – La Bretonnerie
Dezembro 1983
L'étendue du ciel proche n'est pas invisible, mais l'humanité du XXème siècle a tendance à le faire disparaître, à le masquer, à l'isoler dans le recul lointain des galaxies inaccessibles. La paupérisation du ciel sans étoiles va de pair avec l'augmentation de la valeur marchande du Soleil.
Le défilé des Constellations nocturnes qui obligeait les Anciens à la contemplation de notre immersion au sein de la foule des étoiles et nous comptait au nombre de la manifestation, nous est masqué par la réduction pratique de notre position spatiale en comptage d'un temps humain à quartz où la mobilité du chiffre des seconds égaie seule l'espace ou au temps de notre environnement céleste naturel. La venue au monde de l'humanité si brève soit-elle procède de l'ensemble de la manifestation, et la rend de ce fait interdépendante de son environnement étoilé. Solitude impensable de la nuit sans étoiles. N'y a-t-il pas un danger à se faire voiler les étoiles comme se voile la face pour ne pas voir, pour ignorer ce qui nous regarde. Renversement de L'aporie de Leibnitz, pourquoi un monde plutôt que rien, en pourquoi rien plutôt qu'un monde. Si l'essentiel du contenu du projet diurne porté par le courant actuel d'individuation des êtres semble gardé dans le secret des limbes, ne voyons-nous pas déjà la métamorphose crée pare le collectif dès les dernières lueurs vespérales, transformer chaque nuit pour l'œil notre planète en méga-boite de nuit où l'humanité naissante, isolée et auto-médusée par sa super production de Luminaires électriques, ne reconnaît plus pour réalité que les propres productions de son esprit comme l'avait annoncé Borgès. Supprimer le visible du ciel ne consiste-t-il pas à réveiller positivement son oubli, à engendrer l'indifférence et le sommeil vide des neurones éteints. La planète bleue le jour se réfère au seul Soleil. La peur du noir a crée l'observation ancestrale du ciel de nuit, et la conscience des étoiles est une métaphore du savoir des Anciens. Le déni des repères étoilés, semble lier le déni de la profondeur du ciel à celui de la profondeur de l'histoire. Le ciel physique est antérieur à son concept mathématique, il est un acquis de la mentalité collective longue de générations de rêveries nocturnes. De nuit, sur sa planète électrique l'humain technique se met en danger de perdre le Nord. La conscience du ciel ne peut se passer du déploiement de son manteau d'apparat étoilé. C'est cette apparence étoilée dont nous voulons restituer la proximité. L'éloge de la nuit.
Geneviève Morgan – La Bretonnerie
Dezembro 1983