A obra de Graça Coutinho apresenta aspectos tão paradoxais que quem se aventure a interpretá-la ou a escrever sobre ela fica perplexo. É uma obra que lida muito especificamente com materiais e no entanto toda ela trata de sensações imateriais; é uma arte especificamente autógrafa, autobiográfica até, e no entanto impessoal; é um conjunto de trabalhos simultaneamente variegado e uniforme. Numa época em que a arte é agressiva e habilidosamente comercializada, e na qual, consequentemente, grande parte da produção artística se acomoda com demasiada complacência às estratégias de promoção, tornando-se suave e agradável ou então, na esteira do ultra-chique, de uma fealdade consciente de forma a captar o olhar apressado do mau gosto; contrariamente, a arte de Graça Coutinho é recatada, desdenhando os bons sentimentos usados ostensivamente na lapela como as falsas intelectualidades. É uma arte morosa – uma arte que exige de quem contempla tempo para apreciá-la, para acompanhar as suas divagações, para escutar as suas associações e sugestões murmuradas. Acima de tudo, a sua obra é poética e intimista. Se o tempo poético sugere intemporalidade, saliente-se no entanto que o seu trabalho (sempre paradoxal) é também impiedosamente contemporâneo. Embora, e porque recorre ao papel e à tela como suportes, este trabalho possa ser visto como pintura, meio de expressão tradicional por excelência, nos aspectos essenciais Graça Coutinho permanece uma artista conceptual ou experimental.
Lembro-me dos seus trabalhos datados de 1979 que eram como um léxico dos materiais de uso doméstico e cujo prolongamento formal se encontra nos seus mais recentes trabalhos que reúnem como que amostras geológicas dos seus materiais de pintura. Estes não se situam à superfície dos seus quadros mas sim no seu âmago, são a sua razão de ser. Retomam a discussão sobre as formas de representação e a natureza do trabalho artístico que tanto preocupou os artistas não tradicionais de Duchamp a Koons. É significativo o facto da artista se voltar cada vez mais para o fazer de objectos ou esculturas em bruto, estruturando ou reunindo e aglomerando pó, roupas, agulhas de pinheiro, cortiça, palavras, etc... Graça Coutinho é uma artista que fala da nossa permanência no mundo usando os objectos e os materiais desse mesmo mundo, palha, lama, tinta. A sua originalidade consiste em harmonizar estas preocupações e estes materiais com as tradições sensuais da pintura. A associação do desenho (pintura/desenho) e dos materiais que não são convencionalmente utilizados em arte resulta única: ao mesmo tempo intelectualmente provocante e sensualmente sedutora.
Tony Godfrey