EVOCAÇÕES EQUIVOCAS DA ILHA
PORTA33 - Março / Abril 1991
ANTÓNIO ARAGÃO «EVOCAÇÃO EQUÍVOCA DA ILHA»
Por Lilia Bernardes (texto) - Eduardo de Freitas (fotos)
Diário de Nóticias - Revista
Ed. 03-03-1991
Nasceu na Ilha e os anos passaram. Voltou-se para o mundo e deixou-a“ porque gostava
muito da
Madeira”. Com licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas inicia um currículo onde
o tempo
pergunta: como é possível fazer tanto?
Viajou com poemas e pinturas e as galerias abriram as portas:
de França ao México, dos EUA a Itália. Está representado nas antologias da Novíssima
Poesia
Portuguesa, da Poesia Concreta em Portugal, da Poesia Visual Europeia, da Poesia
Surrealista em
Portugal entre outras muitas coisas. Foi ele que escreveu, na ficção, Um buraco na Boca,
na poesia
Pátria, Couves, Deus e etc, no teatro Desastre Nu. Sobre História da Madeira publicou
vários
estudos e trabalhos de pesquisa. Pintou a óleo, fez lacas. Vendeu-as em Paris e fez uma
casa na Lapa.
Adicionou-lhe uma Galeria e chamou-a de Vala Comum. Antes disso foi responsável pelo
Arquivo
Regional. Hoje, faz colagens, queima jornais, aplica outras técnicas. Descobriu a
electrografia
e teorizou-a. A simbiose do homem com a máquina. Um homem dividido? Irreverente?
Anarquista?
Surrealista? Historiador? Poeta? Ficcionista? Escolham.
Ele aceita e sorri.
E porque estudou
Museologia e Etnografia em Paris, restauro de arte no célebre Instituto Central de
Restauro em
Roma, António Aragão esteve o ano passado à frente de uma equipa que se empenhou na
delicada tarefa de
salvação das pinturas de outro artista plástico nascido na Madeira - Henrique Franco
(pinturas
datadas de 1947 que decoram o Salão Nobre do Instituto Nacional e Estatística, em
Lisboa).
Acabou de chegar da cidade do México. Foi oficialmente convidado a participar na “III Bienal Internacional de Poesia Visual, Experimental y Alternativa” na qual deu a conhecer os seus mais recentes trabalhos. Encontra-se de passagem para a próxima exposição a realizar em Itália. No intervalo parou no Funchal. Na Galeria Porta 33. Com uma exposição. Pintura e laca. Trabalhos datados dos anos 50 e 60 que são uma “Evocação Equívoca da Ilha". Um passado vivo, mas olhado à distância.
Diário de Notícias - Porquê esta paragem na Ilha!
António Aragão - Eu não era para expor mais na Madeira, mas fui convidado pela galeria PORTA 33. Foi uma gentileza da parte deles, e porque acredito no seu projecto. Se não, os quadros continuariam guardados na minha casa, cá no Funchal.
Diário de Notícias
- Os quadros que agora expõe, têm títulos muito estranhos,
chama-lhes por
exemplo: "uma altura virgem calada”; “É fácil um terceiro enlouquecer".
António Aragão
- São muito estranhos. Eram trabalhos sem títulos e não resisti a
dar os títulos que eu hoje sinto. Mais nada. Foi só isto. Eu vim cá para pintar para a exposição
em Itália
(possivelmente para finais deste ano) e escrever um livro. Só.
Diário de Notícias
- Nessa próxima exposição a técnica escolhida nada tem a ver com
estes trabalhos agora expostos.
António Aragão - Não tem nada a ver com isto. Isto é um passado.
Diário de Notícias - Está morto?
António Aragão
- Se ele tem qualidade está vivo. É assim que eu penso. Para mim já
não me interessa.
Interessa-me sim, o que estou a fazer neste momento. Trabalho agora com papéis colados,
queimados e
outras coisas. Com máquinas. Com fotocopiadoras.
Diário de Notícias
- A pedido da Secretaria de Estado da Cultura tem publicado
textos teóricos sobre
essa fusão homem/máquina. De que fala?
António Aragão
- Falo da importância que tem na criatividade, quando o homem se une
à máquina e podem formar uma simbiose criativa com resultados altamente positivos. A esse
resultado chama-se
electrografia. Aliás já fui convidado para exposições com trabalhos desse tipo. A máquina tem
tanto
de possibilidades que eu, a dada altura, chego a ter dúvidas se sou eu ou a máquina que está a
criar,
ou se somos os dois numa simbiose profunda. Agora existem máquinas novas, espantosas, que quase
se
pode "pintar" e depois fazer correcções, sobreposições, distorções. Não há a lentidão do tempo,
como
a pintura a óleo requer. Há todo um outro trajecto, de uma pintura do passado, cujo tempo é
muito
importante para distanciar do que se pode fazer hoje com a máquina cujos resultados são quase
imediatos.
Diário de Notícias
- Na pintura a óleo, o instrumento para pintar é o pincel ou a
espátula. O pintor domina o material. Não existem intervenções exteriores.
António Aragão
- A máquina não substitui o pincel. O pincel é inerte, obedece à mão.
A máquina não.
Tem recursos, ela própria, e que são imprevisíveis. São de tal maneira que pertence a outro, a
um
personagem criativo. A determinada altura não sei muitas vezes o que sai dela. Numa exposição
que
fiz chamava-lhe o meu
camarada número 25224... o nr. da máquina.
Diário de Notícias
- Sentiu-se obrigado a escrever sobre electrografia,
porquê?
António Aragão
- Se eu escrevi sobre electrografia foi porque tive necessidade de
explicar o meu caso.
Não para me armar.
Diário de Notícias
- Embora muitos artistas apliquem essa nova técnica, outros há
que utilizam o
computador. Não se sente atraído por uma máquina com mais possibilidades?
António Aragão
- É muito sedutor, mas Deus me livre de me meter numa coisa dessas.
Gosto de ouvi-los
e fazer-lhes perguntas. Não tenho tempo nem disponibilidade mental para entrar nesse campo.
Atrai-me,
como me atrai o vídeo, Só que não posso andar a saltar de uma coisa para outra. Já dizem que sou
um
saltão.
Diário de Notícias
- Não será? Escreveu uma única peça de Teatro e que foi prémio
nacional. Porquê só
uma?
António Aragão
- Só fiz uma porque me apeteceu escrever diálogos.
Diário de Notícias - Depois chamam-lhe dramaturgo.
António Aragão
- É verdade, mas chamam-me outras coisas. Depende. Umas vezes sou
poeta, outras sou
pintor, outras escritor de romances. Tanto faz.
Diário de Notícias
- Editar e expor em Portugal, é
difícil?
António Aragão
- Vão sair agora duas reposições minhas, ando a massacrar nisso mas
eu não achei que
devesse ser explorado pelas editoras. As editoras têm o seu ponto de vista e eu não gosto delas.
Se
eu tivesse mais dinheiro, colocar-me-ia imediatamente fora de todo o circuito comercial. Com a
galeria que tenho em Lisboa, a Vala Comum, cabe tudo lá dentro, é só para gente que não tem
acesso
às galerias comerciais, como eu tive. Tenho que lhes dar as mãos. Porque só expõe e só edita
quem
eles entendem. É um imperiozinho que está a ganhar muito dinheiro. A arte é a religião de hoje.
A
religião está a tornar-se laica. A sociedade tornou-se laica.
Diário de Notícias - O Homem sempre teve necessidade de divinizar.
António Aragão
- Sim. De encontrar o divino ou o belo, como paradigma do divino,
se quiser assim.
Então faz outra exposição: do divino para o belo. Para a arte antiga era a eternidade de Deus
que
eles estavam glorificando. Hoje, não é essa eternidade que se procura na arte porque Deus
morreu.
Deus está morto para a sociedade.
Diário de Notícias - A arte como divinização do belo é eterna?
António Aragão
- A arte nesse conceito de beleza, que se procura, é
eterna.
Diário de Notícias
- Mas o belo de agora pode ser estragado daqui a dois
minutos.
Diário de Notícias - Hoje pinta-se para quem?
António Aragão - Hoje pinta-se para o próprio e para passar a beleza de mão em mão.
Diário de Notícias - Sendo assim, há produtores de beleza, como há produtores de cinema. Nessa passagem de mão, os lucros ficam para quem?
António Aragão - Uma galeria que faz exposições de arte ganha mais que o artista. Chegam a levar cinquenta por cento.
Diário de Notícias - Arte é já investimento, comercialização. Actualmente, julgo eu, é fácil vender.
António Aragão - É porque há muito comprador que diz que as acções são uma coisa um bocado perigosa; que o dinheiro flutuante é uma chatice; que os juros não dão muito, as casas, os inquilinos, essas histórias de conversa fiada, e o melhor é investir em arte. Então há dois tipos de clientes: os da arte antiga e os da arte moderna.
Diário de Notícias - Muitas vezes compram-se unicamente nomes, como um imóvel bem situado.
António Aragão - Sim, até porque nem sabem. Querem é investir, mas continua a ser investimento em beleza, investir em arte. Repare, ainda há dois anos vendeu-se uma cómoda D. José por 50 mil contos, não é brincadeira. artes Cinquenta mil contos para a classe média portuguesa é brutal. Dava para fazer casa e a família viveria perfeitamente toda a vida. E há um indivíduo que tem a disponibilidade de comprar uma cómoda por esse preço, em leilão.
Diário de Notícias - Conhece bem o mercado da Madeira? António Aragão - Não. Conheço o de Lisboa, embora eu não tenha entrada nele. Antes do 25 de Abril vendi quadros em Lisboa depois comecei a vender quadros em França. Aí tinha um contacto, mas só para uma Galeria.
Diário de Notícias - As galerias são a única forma para os artistas serem conhecidos. Têm obrigatoriamente de cumprir esse caminho.
António Aragão - O que eu queria fazer era realmente um furo às galerias. O meu projecto não se vai cingir unicamente à galeria.
A escrita também terá lugar. Quem não poder editar e tenha qualidade deixa lá os poemas, o romance.
Quem estiver interessado pede fotocópias. Paga uma quantia irrisória.
Diário de Notícias - É um mecenas?
António Aragão - Sim, tenho mesmo uma declaração da Secretaria de Estado da Cultura autorizando a utilização da Lei do Mecenato, mas qual Lei do Mecenato?
O mecenato tem de pagar IVA, não há compensação. É difícil para as empresas colaborarem nestas condições, por isso tenho estado a fazer tudo à minha custa.
Diário de Notícias - Porquê ir para Lisboa?
António Aragão - Porque gostava muito da Madeira
Diário de Notícias - Isso não é um paradoxo?
António Aragão - Não, porque gostava tanto desta terra que as coisas más, que sucediam aqui, chocavam tanto que o melhor era sair. Tenho casa, atelier e família mas, para já, a ilha não corresponde facilmente às necessidades espirituais e culturais que a gente tem. A pessoa vive isolada. Isto é muito bom para o meu caso, agora. Tem um clima agradável e sinto-me livre para pintar e para escrever. A minha ligação, neste momento, é acidental.
Diário de Notícias - E antes, quando veio trabalhar para o Arquivo Regional?
António Aragão - Também foi acidental. Podia ter ficado em Paris. Depois ao fim de três anos meti licença ilimitada e fui-me embora novamente para Paris, com uma Bolsa da Gulbenkian. Voltei ainda ao Arquivo e depois fui para a Universidade Nova. Sou uma espécie de saltimbanco que gosta de viver assim.
Diário de Notícias - Acaba por se fixar em Portugal. A escolha certa?
António Aragão - A Língua tem de ter a profundidade do nascimento, da vivência. E só estando mesmo a viver no próprio País é que isso é possível, para a escrita.
Diário de Notícias - Como é que se define como poeta?
António Aragão Sou concretista? A Natália Correia chamou-me surrealista. Agora, diga-me: o que é isto? Não estou interessado em saber. Quando faço é porque gosto de fazer, não é para este nem para aquele. É para quem calha. Para mim, sobretudo.
Diário de Notícias - O ser ilhéu teve alguma influência na pintura ou na escrita?
António Aragão - Eu nasci no mundo. Nascer aqui foi uma casualidade. Por exemplo, eu tenho um amigo no Japão que estou mais próximo dele do que dos amigos, e tenho por eles muita consideração, que vivem no Curral das Freiras. O universo criativo é um universo sem espaço. Por isso é que é possível fazer-se uma antologia, como se fez na América, de poesia concreta onde estão representados poetas de todo o mundo.
Diário de Notícias - É possível dizer que existe uma literatura madeirense?
António Aragão - Não sei se é possível.
Diário de Notícias - Herberto Helder e António Aragão, nasceram aqui. São poetas madeirenses?
António Aragão - Herberto Helder, hoje em dia, caiu na metáfora barroca, é aí que ele vive. Não sei se isso tem alguma coisa a ver com a Madeira. Ele não mete mar, não mete serra, por que é que há-de ser poesia madeirense? Quando foi para Lisboa embrenhou-se com o surrealismo, com o grupo do Cesariny. Ele, hoje, está é preocupado com o seu mundo interior. Acredito que hajam poetas madeirenses, como existem carpinteiros madeirenses. Não acredito que haja poesia madeirense. Acho que é um pouco de provincianismo as pessoas se preocuparem com problemas que não chegam a definir cultura. A cultura define-se não porque viveu na rua tal. Define-se pela qualidade e pelo potencial que ela transporta e que nos dá mais, para além daquela rua onde se nasce.
Diário de Notícias - António Aragão faz parte de uma antologia de escritores madeirenses.
António Aragão - Sabe, são poucos. Porquê e para quê? São coisas das pessoas que se divertem a fazer livros.
"EVOCAÇÃO EQUÍVOCA DA ILHA"
EXPOSIÇÃO DE PINTURA DE ANTÓNIO ARAGÃO
Inaugura, terça-feira, dia 5 de Março às 21H30
GALERIA PORTA 33 Rua do Quebra Costas, 33A - Funchal