PORTO SANTO
INAUGURA A 30 DE MAIO ÀS 17H30

Na valorização simbólica do território através do desenho, hoje, está fora de questão o modelo do desenhador viajante que, através do seu traço, faz chegar as qualidades da paisagem e dos costumes àqueles que aí nunca estiveram – o mundo mudou, a viagem deixou de ser uma excepção e o desenho ocupou outro tipo de funções. A este respeito, desde que comecei este caminho, recordo-me amiúde de uma ideia de Juan José Gómez-Molina, de que “o desenho não é um problema de representar objetos ou de fazer presente o real, mas o de transformar a realidade a partir da modificação do imaginário”.

O corpo de trabalho que podemos ver nesta exposição desenrolou-se em três momentos. Em primeiro lugar, o desenvolvimento de um caderno exploratório para mapear materialidades, aventar possibilidades e testar o imaginário em expansão. As premissas foram muitas vezes os temas da visibilidade; como apontei no caderno exploratório: “Pareidolia: quando um viajante se aproxima, dependendo de onde vem, as formações geológicas podem sugerir formas muito diferentes.Uma silhueta ao longe pode assemelhar-se à forma de um tigre que aguarda uma distração da sua presa, ou sugerir um cão que espera pacientemente sentado. Desse primeiro encontro pode surgir o nome de uma região e isso afectar para sempre o espírito do lugar.”

Depois, a imersão no lugar: a residência na Escola da Vila comprovou pela enésima vez que o estudo documental é apenas complementar da aproximação física e o quanto as imagens são parcas na tradução da experiência do lugar. Para quem, como eu, nunca tinha saído do continente, o contacto direto com a escala da paisagem, com a textura geológica, com os vislumbres botânicos e a vivência na ilha são, num primeiro instante, uma experiência da ordem da fantasia e apenas depois concreta, como tudo resto.

Por último, o momento de produção das imagens depois da experiência, que começou no Porto Santo e terminou no atelier, onde cheguei com seixos de basalto e cal nos bolsos. Aqui, o cuidado para não cair nas ravinas, o controlo das miragens para que nenhum viajante, venha de onde venha, aviste formas indesejadas – o sol e o sal não têm clemência à vista; isto enquanto se salvaguarda a indeterminação do caminho.

Daniel Silvestre

*** A exposição Porto Santo resultou de um convite para participar, enquanto ilustrador, em um guia informativo/artístico sobre a ilha do Porto Santo a partir da Escola da Vila. Uma parte dos desenhos presentes na exposição foram produzidos em residência na Escola da Vila entre os meses de agosto e setembro de 2024.

Daniel Silvestre
Exerce actividade de ilustrador desde 2006, tendo ilustrado, entre outros, textos de Alice Vieira, Ana Saldanha, João Pedro Mésseder, José Luís Peixoto, Machado de Assis, Sophia de Mello Breyner Andresen e Raúl Brandão. Foi ilustrador residente do Museu da Cidade (actual Museu do Porto) entre 2021 e 2023. Foi seleccionado para a 1ª edição da Residência de Banda Desenhada em Bruxelas (uma iniciativa conjunta do IP Camões – Centro de Língua Portuguesa em Bruxelas e da Bedeteca de Beja), em 2023. Prémio de melhor edição independente na 35ª edição do Festival de Bnda Desenhada da Amadora. Actualmente é docente convidado de desenho na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e na Escola Superior de Design do IPCA (Barcelos).

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